Nos mais variados âmbitos de intervenção e áreas profissionais, confunde-se muitas vezes esperteza com inteligência. A título de exemplo, há algumas pessoas com responsabilidades que são espertas, mesmo muito espertas, só é pena que não sejam inteligentes. Isto é, são "desenrascados", aprenderam a utilizar um conjunto de técnicas e expedientes, e dão respostas rápidas em algumas situações tipo mais frequentes e o resultado no curto prazo parece garantido. Contudo, quando as coisas se complicam as soluções estandardizadas e as espertezas já não dão resposta, é necessário uma outra abordagem. O mesmo se passa com os jovens que têm sucesso no Desporto ou na Escola, enquanto lhes basta reproduzir (nos exames e nas competições) o que lhes ensinaram a fazer. Quando passa a ser necessário analisar os problemas, montar estratégias, fazer opções analisando os efeitos colaterais…, já não têm arcaboiço para isso. Foram treinados para reproduzir. Não basta ser esperto, é necessário ser inteligente. Ou seja, é necessário ter uma visão mais ampla, ser capaz de ir ao fundo dos problemas e compreender os processos, construir e esperar para agir, perceber as funcionalidades e as tendências evolutivas contraditórias que possam existir. É necessário ser capaz de jogar (no Desporto, na Matemática, no Português, na Biologia, etc.) sentindo o prazer de pesquisar, de descobrir, de evoluir e usufruir do processo e não apenas do resultado final. É necessário que se assuma que, na Escola e no Desporto, o que está essencialmente em causa não é a transmissão de conhecimentos e técnicas (por muito pertinentes que sejam), mas sim o domínio de uma metodologia e de instrumentos que possibilitem jogar com o conhecimento que todos os dias é produzido a uma velocidade vertiginosa. Não nos podemos transformar, nem transformar os nossos filhos, alunos e desportistas em "vilões espertanhos" que, do alto da sua ignorância, se acham os reis do mundo. Já agora, é provável que quem costume pensar "mas se o problema fica resolvido com umas 'bocas'… para quê preocupar-me", tenha tendência para "vilão espertanho".
Hélder Lopes, Professor Universitário