Diz o povo que a vida são dois dias e o Carnaval são três. Há, no entanto, algumas paragens geográficas onde o tempo do Carnaval não obedece à cronologia de adágios por mais sábios que sejam. O Carnaval transforma-se numa espécie de ADN intemporal que se repete com uma periodicidade por vezes assustadora.

Não se está a falar, como é óbvio, do Carnaval que por estes dias anda na rua, que é natural, que ninguém leva a mal e até tem a grande virtude de permitir um certo sentido crítico, mesmo que disfarçado por uma máscara, óptimo instrumento contra o medo.

O Carnaval dos mascarados, das mal-assadas e do mel de cana é inofensivo, mas que dizer, por exemplo, daquele Carnaval que aconteceu no túnel da Quinta Grande.É impossível não levar a mal a falta de luz e as mangueiras que não funcionaram. É imposível não levar a mal as explicações de que os bombeiros é que não sabem manusear a água ou de que os condutores devem ser os primeiros bombeiros para acudirem ao que as concessões milionárias das estradas não consreguem fazer funcionar.

Este Carnaval faz corar de vergonha o verdadeiro, e até seria risível se não fosse um atestado do que nesta terra funciona mal, não tem remédio e termina sempre numa naturalidade que desculpa a crónica desresponsabilização de quem deveria assumir os erros e as omissões.

Mas, como se sabe, neste movimento de estupidez natural em que se transformou a gestão da coisa pública, a culpa morre sempre solteira e permite todas os exercícios de prepotência e até de incompetência pura. E se até aqui tudo isto era mais ou menos disfarçado pelo dinheiro que se tinha e por aquele que se fingia ter, agora chegamos ao ponto em que apenas ficamos com a realidade e esta não é bonita, nem glorificante, mas antes a clara evidência da grande ilusão.

Aos túneis de segurança duvidosa, juntam-se as marinas, os parques empresariais, as infraestruturas fantasma, a visão exótica do mercado da comunicação social e da democracia e tantas outros delírios que nos perturbam.