É difícil saber o que aconteceu à política, à carreira política. Há dias, contava-me um amigo que lera um livro onde se discutia a relação inversa entre os protagonistas de ficção (é um amigo esquisito) e o avanço científico. Quando julgávamos que o mundo acabava nas colunas de Hércules, os heróis eram deuses. Hoje, quando baptizamos nebulosas a milhares de anos-luz, o herói é o refugo, o insecto, o anti-ele próprio. Em política é semelhante. Quando os políticos nos chicoteavam para construir pirâmides, pensávamo-los deuses. Quando nos aumentam a retenção na fonte, temo-los por idiotas - um predicado que, apesar de mais perto da verdade, não é ainda responsável. Talvez estejamos a ficar mais espertos e, por inerência, mais exigentes. Mas esse aumento de exigência é tudo menos um comportamento. O cliché-mor é a "falta de meritocracia na política". Grande erro. A meritocracia funciona. O conceito de mérito é que não. Com flagrantes excepções, o percurso ideal de um jovem político inicia-se com uma inscrição maculada pela acne. Nos anos seguintes, o aprendiz deve explorar as profundezas, evitando o ensaio de uma ideia. Deve tirar um curso, empenhando o tempo livre (por mais tempo que seja) em associativismos e passatempos gregários. Deve coleccionar informação e contactos, desdenhando o trabalho intelectual, o domínio de um ofício e o risco. Os jovens políticos não fazem isto porque são "maus" ou "incompetentes", ou não necessariamente. Fazem-no porque esse sacrifício é o padrão do sucesso. Ser bom, ser competente, chegar a algum lado, é fazê-lo. A parte interessante é o quanto a política hoje representa a negação da cultura de juventude. A juventude é subversiva, temerária, inocente, individualista, com as suas praias debaixo dos passeios, a sua bússola moral inamovível e a sua sacralização da verdade. A política é perversa, calculista e manipuladora. Ela toma-nos. "É-se" dela. Evita surpresas, deixando a ironia e o humor à porta. A política busca "convergência" - um eufemismo para "banalidade". O debate é supérfluo, sobre o que andou o Franquelim a fazer aos 16. O debate é inconsequente, a soma nula de um dizer BPN e outro dizer PPP. Isto não é local. Não é novo. Mas a expectativa de que mude é. E esse é o cerne do que se nega. A consequência é séria. A política não inspira os jovens, vende-lhes um invólucro de liderança - uma voz, uma dicção, uma postura, uma ideia de força e uma subida para o topo onde o ar não rarefaz - a troco da sua aliança. O trade-off choca a juventude. Ela sente que não existe liderança enquanto os supostos líderes quiserem uma parte da acção. Um líder quer saber de alguma coisa para além dele, de ganhar ou perder, para além da política. É fixe. Os jovens sentem-se melhores à volta dele. Mais importante que isso, um líder trata-os como pessoas - pessoas inteiras, não menor-denominador-comum. É normal que ninguém queira saber de nada do que é oficial. É o tipo de negligência que manifesta, tantas vezes, uma defesa contra a dor. É mais fácil chapar rótulos de "idiotas" ou "ladrões" indiferenciadamente e olhar para o lado do que enfrentar a possibilidade de todo o mundo ter perdido a inocência - dos que nos estendem a mão ou se preocupam connosco estarem em modo "cada um por si". A mudança não pode vir só daí. Os heróis são o refugo, os insectos, os anti-eles próprios. São indivíduos. Fracassos aparentes, que prevalecem sobre a trivialidade, o cliché e a pré-determinação. Têm todas as idades.Não são deuses nem idiotas, apenas gente disposta a amadurecer e compreender que não precisa de pertencer a uma comunidade de proscritos ou de santos para tomar controlo sobre a sua vida. O meu amigo esquisito, ele é capaz de ter descoberto alguma coisa. Mas só porque não liga - não muito - a política.
Pedro Fontes, Advogado