António Ferreira O nosso arquipélago é propício ao mito. Ainda há poucos dias, um fradinho-da-mão-furada, amigo de travessuras, contou-me um episódio que não quis acreditar. Diz ele: num jardim perto de todos nós, estava o povoléu reunido em torno de uma pocinha de água salobra, onde dois sapos farfalhavam um com outro. O povo poderia estar distraído com as flores do jardim, ou perdido nos poemas de Herberto Hélder, mas, segundo consta, o ofício cantante dos sapos era entretenimento de primeira apanha. E assim permaneceu, pelo menos, até o momento em que o povo percebeu que o coaxar daqueles dois, servia apenas para tirar a barriga da miséria dos próprios, e de mais ninguém. O lamento provocado por esta realidade não se fez ouvir, pois as verrugas dos sapos são venenosas e não convém desafiar os bichos, porém, quando estamos a pão e laranjas, ficamos com pensamentos atrevidos, e, no meio da desordem, houve quem delirou com a litania: «se ao menos tivéssemos uns lábios de uma princesa capazes de fazer magia.» E não é que do céu, duma nuvem que mais parecia algodão-em-rama, descende a princesa e rainha, com um belo vestido índigo-carmim, muito «haute couture», a própria Dona Maria Pia de Saboia, anjo da caridade. A mãe dos pobres, já com os seus reais pezinhos misturados com a terra, questiona o povo, no seu estilo muito irreverente: - Meu povo, como posso vos acudir? Espero que exista um bom motivo para abandonar a chalé celestial… O povo não responde com palavras, mas com gestos, desviando os olhos para os dois sapos. E replica a senhora: - Credo! No meu tempo, tiravam-me do sério duques ou marechais, agora são sapos! Uma menina, com toda a ternura e inocência, tenta acalmar a situação: - Mas, princesa, se lhes der um dos seus singelos beijos, eles deixam de ser sapinhos.. A rainha acalmou os ânimos, olhou para os sapos, e sentiu repugnância. Todavia, para esta princesa, o povo é quem mais ordena; o povo quer, o povo tem. A rainha inclinou a coluna e deu um doce beijo no sapo mais gordo. A transformação que se deu, gerou grande espanto em todos...em vez de um príncipe, o sapo transformou-se numa betoneira! Dentro do tambor desta, estava uma capivara que saltou cá para fora, e fugiu alegremente, aos pulos, emitindo um ronco que, ainda hoje, perturba os presentes nos seus pesadelos. A rainha ficou tão furiosa com isto, que nem sequer olhou para o sapo mais pequeno. Simplesmente, bradou aos céus: Se eu fosse o Rei....! E voltou para a sua celestial chalé, de teleférico, nervosa e tremendo, com o orgulho muito afectado. Conclusão: Há sapos que nem com uma Saboia...