Lembro-me que teria 14 anos quando tomei a decisão de seguir o curso de Medicina. Estávamos em Setembro, época das vindimas e onde todos os anos se cumpria o tão desejado ritual de passar o mês de férias com os meus Avós, em Trás-os-Montes. Mesmo antes de falar com os meus pais, entendi confiar a meu avô esta minha decisão! Ouviu-me com a paciente ternura de todos os avós e depois de cofiar as pontas retorcidas do seu bigode, gesto incontornável de um velho monárquico austero e vertical, sentenciou: "gosto muito e fico feliz, mas devo lembrar-lhe que ser médico é mais do que uma profissão …. é uma maneira de estar na vida!"
Nesse momento, na minha cabeça ainda com cabelo encaracolado, ficou inscrito o compromisso solene perante o meu avô, que um dia estaria pronto a combater a doença, aliviar o sofrimento, confortar o desespero e tentar conter a morte. Isto é …. ser médico!
O tempo foi passando e nem só o meu cabelo encaracolado foi ficando branco e fugidio. Muita coisa mudou ao longo de quarenta anos e as sábias palavras de meu avô, tomaram conta do meu dia-a-dia, como médico mas também como homem.
Hoje, esta "maneira de estar na vida", dificilmente poderá conviver com este estranho poder democraticamente eleito, que quer transformar os meus doentes numa estatística de produção e o meu trabalho numa despesa que a troika exige que se corte.
Esta "maneira de estar na vida", não pode tolerar este estranho poder que ignora e até explora o silêncio dos velhos, esquece a exclusão social dos mais frágeis e subestima o drama dos desempregados!
Como pode um médico aceitar este estranho poder que desqualifica os seus profissionais de saúde, cobra portagens a quem tem que ser operado e parece querer condicionar medicamentos indispensáveis?
Como pode alguém garantir cuidados de saúde humanizados, num clima de hostilidade social como se os direitos sociais fossem apenas produtos transaccionáveis num qualquer mercado?
Como pode um cidadão entender que se ponha em causa a sustentabilidade financeira dos nossos hospitais, quando se alimentam institutos inúteis, fundações fraudulentas, submarinos suspeitos, BPN e BPP onde os protagonistas continuam impunes?
Não sei que caminhos perversos este poder politico vai escolher para a nossa saúde. Mas sei que há cerca de um ano a OCDE, entre 34 países, confirmou ser Portugal o 5º país com melhor evolução na esperança de vida, o 1º no declínio da mortalidade infantil, o 2º com melhor evolução de indicadores entre 1970 e 2009 e o 3º país em que a despesa com a saúde menos cresceu.
Perante este relatório insuspeito, certamente que nenhum de nós irá permitir que qualquer estranho poder, mesmo que democraticamente eleito, possa pôr em causa este património único, que todos os profissionais da saúde construíram e que o Serviço Nacional de Saúde continua a garantir a todos os portugueses.
Mas há seguramente uma causa, um pecado original, uma incapacidade que faz com que este estranho poder que nos governa, não seja capaz de nos tratar bem. É que para o fazer ……… é preciso gostar das pessoas!
Manuel Brito