No início do ano, apelei ao ânimo esperançoso. O quintal político dá porém, sinais de represálias. Os madeirenses têm o pescoço laçado, e pendente do galho das possibilidades excedidas (e consentidas), sob o cutelo dum programa de governo que não escolheram. Vagas de emigrantes partem em demanda de vida, deixando sementes estéreis duma juventude atirada ao desemprego. O país mediático indigna-se com reformas de autarcas aos cinquenta anos. Contudo, os guardiões da austeridade não se indispõem com um punhado de políticos locais, alguns de relevante soberania "paroquial", que mantêm regalias cozinhadas no gamelão da autonomia, sem paralelo na liturgia da expiação reinante. Os xamãs da redenção portuguesa aspiram em nos refundar num frio útero, somando mais pobreza a uma gestação democrática de quatro décadas, que embora imperfeita, conferia dignidade após meio século de obscurantismo. Rezam que o país não tem (ainda) sarna grega, e reclamam pateticamente sucesso nos mesmos mercados que nos consideram lixo, quando o fiador BCE, ainda que tarde, foi quem nos acolheu. Mais de metade do valor dessa operação, já voltou a ser enterrada num banco pejado de ex-políticos. A plebe nem delirou quando viu o salário de 2013. A transferência de riqueza manter-se-á com os mesmos, que promiscuamente parasitam nos tabuleiros públicos e privados, alavancados pelo trampolim político. Por isso estabelecem, que o mal dos outros é uma inevitabilidade. O diferendo das finanças regionais, não trará como em 2007, amuos e eleições antecipadas. Já não há favas contadas nem redes sob o trapézio. No Porto Santo os relógios retomarão o tempo suspenso, no regresso do ferry que move a ilha. Há o mercado que navega, a democracia que encalha, e uma "barriga que empurra p'ra frente".

Donato Macedo, Lic. em Comunicação