Há poucos dias ficamos a saber que os milionários portugueses viram o seu património valorizar em cerca de 16%, o que não parece de todo surpreendente face à forma como tem sido gerida a política portuguesa. Mas não são só aqueles que aumentaram a sua riqueza pois os nossos credores também ganharam muito com a crise que assola o nosso país. Assistimos durante os últimos três anos, à destruição da classe média portuguesa aquela que constitui, em grande parte, a alavanca da nossa economia, reduzindo-se drasticamente os seus rendimentos disponíveis quer por via de cortes dos salários e pensões quer pelo aumento brutal dos impostos. Vivemos assim numa sociedade cada vez mais desigual onde os pobres continuaram pobres, mais débeis do ponto vista económico porque se aumentaram um conjunto de bens e serviços indispensáveis ao seu dia-a-dia, desde de uso corrente à saúde, cortaram-se serviços públicos e apoios tão essenciais à maioria dos portugueses que já se encontravam no limiar da pobreza, a classe média ficou sem poder de compra e destruíram-se muitas famílias e empresas. Apesar de se registarem ténues melhorias no desempenho da nossa economia, continuamos numa situação de grande incerteza e insegurança pois o próximo ano avizinha-se ainda mais difícil e terrível perante a gravidade da austeridade que nos será imposta pela entrada em vigor do orçamento de Estado para 2014 que irá agravar mais a nossa vida. Será a partir dos finais de Janeiro que iremos sentir com grande acuidade o novo pacote de audaz austeridade. Agora vive-se a quadra natalícia na pura ilusão de que está tudo bem e no renovar da esperança que cada mudança de ano projecta em nós. Não deslumbro ventos favoráveis e vamos entrar num novo ano extremamente penoso para todos nós. A incúria do homem, a sua soberba em querer concentrar cada vez mais o poder financeiro e económico em restritos grupos dominantes estão a arruinar o desenvolvimento sustentado da nossa sociedade que aparentemente parece gozar de boa saúde mas que no fundo não é mais do que uma camada muita fina de neve que a qualquer momento pode desmoronar. Vivemos momentos de elevada perturbação que implicam medidas audazes que mudem o caminho que se está a trilhar sob pena de colapsar-nos.

José Manuel Oliveira