Aterrei de madrugada. Estava escuro quando apanhei a camioneta para o centro de Buenos Aires. O meu amigo Juan Jo dormia profundamente quando o toque da campainha o forçou a saltar da cama. A mesa da sala do seu pequeno apartamento, situado a poucos minutos da catedral metropolitana, estava coberta de jornais, incluindo edições especiais impressas nos dias anteriores. Na primeira página de cada exemplar, a mesma figura sorridente: Francisco, o novo Papa.
Folheei os jornais enquanto bebia uma segunda chávena de café. Era preciso falar com muita gente para perceber quem era, afinal, o primeiro Papa não europeu. Fora mesmo cúmplice da ditadura militar que apavorara a Argentina ou apenas incapaz de a enfrentar? Como tinham azedado as suas relações com a actual Presidente? Que se podia esperar dele em matéria de género? E de sexualidade?
Teria de encontrar respostas sem descuidar uma espécie de rota papal: a casa da família, a praceta das brincadeiras infantis, o infantário, o colégio, a escola técnica, a igreja do "chamamento", mas também a catedral, o escritório, o trabalho cívico, as distâncias percorridas de metro ou de autocarro.
Um afectuoso orgulho partilhava-se nas ruas. Parecia que a Argentina tinha ganho qualquer coisa ao Brasil. Uma máquina infernal já vomitava "recuerdos" na Praça de Maio.
Uma manhã, apanhei o autocarro 126 com destino à esquina da Rua Lacarra com a Avenida Directório, como ele tantas vezes fizera. Um amigo de Juan Jo, do jornal argentino Clarín, é que me indicara La Alameda, uma organização laica empenhada na luta contra o tráfico de pessoas e o trabalho escravo.
O agora Papa vinha ali confortar as vítimas. Se fosse hora de almoço, sentava-se na cantina social e comia o que havia. Olga Cruz, uma boliviana que passara de explorada a activista, pedira-lhe que baptizasse as suas filhas e ele baptizara-as ali mesmo. Só lhe pedira uma toalha branca e um recipiente com água limpa. Para padrinhos das meninas ela tinha quatro membros da organização – três ateus e uma judia. "Não há problema, se essas são as pessoas que podes escolher, o importante é que sejam boas, que acompanhem as tuas filhas", ter-lhe-á respondido.
Guardei a grandeza daquele e de outros gestos que me foram sendo reproduzidos naqueles dias de Março em Buenos Aires. Não estranharia se então me tivessem dito que a revista americana Time o haveria de escolher como figura do ano. Nunca me passaria pela cabeça é que The Advocate, a mais antiga revista gay norte-americana, também o fizesse. Em verdade vos digo: a única coisa que me surpreendeu nestes nove meses de pontificado foi o discurso sobre a orientação sexual.
Fora tão radical a carta que escrevera às carmelitas a propósito do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Argentina. Não passou a defendê-lo, mas mostra respeito pela diferença. "Quem sou eu para julgar", disse. E, neste Natal, em São Vicente, já ouço dizer "gay" idosos que sempre usaram a palavra "paneleiro".