Ciência ao serviço da sociedade foi o título (em latim) de uma apresentação (em inglês) que fiz em Itália a convite da fundação CIMA, em meados 2010. A fundação CIMA, sediada no campus Savona, da Universidade de Génova, desenvolve e mantém um sistema de previsão e alerta ambiental ao serviço da Proteção Civil nacional Italiana. A fundação também tutela o programa de Mestrado e Doutoramento em Engenharia Ambiental. Afiliada ao CIMA existe uma empresa que comercializa os produtos e serviços desenvolvidos na fundação. Liderada ao ritmo de uma só ‘batuta’ esta sinergia de esforços é de facto um exemplo a seguir, pois permite a conjugação do desenvolvimento de sistemas ambientais de apoio à decisão com um programa pedagógico de qualidade, possibilitando a formação de equipas de técnicos habilitados a operar e promover a evolução destes sistemas. O CIMA é hoje uma referência internacional e tem vindo a exportar mão de obra credenciada até para os EUA.
Para além de ostentar os sistemas de previsão e gerir um sistema de dados hidro-meteorológicos, o CIMA também dispõe de um sistema de previsão de incêndios. No âmbito da sua missão inspirada numa máxima de Galileo Galilei ‘observar para prever, prever para prevenir’, dados e previsões são conjugados num sistema informático que possibilita relacionar toda a informação disponível com a localização de escolas, hospitais, estradas, portos, indústria etc. O noroeste Italiano é alvo de muitos arrojamentos de cetáceos (baleias e golfinhos que dão à costa), facto que estimulou o interesse em incorporar no sistema de apoio à decisão do CIMA, programas de observação e previsão oceanográfica (daí o contato e interesse nas atividades do CIIMAR-Madeira).
Génova é uma região Italiana com muitas semelhanças à Ilha da Madeira, uma vez que é rodeada por montanhas e frequentemente fustigada por cheias rápidas e inundações no inverno, e incêndios no verão. O tecido sociopolítico Italiano também não parece muito diferente do Português. Então, o que nos falta?
Falta-nos visão! A Universidade da Madeira está mais preocupada em sobreviver nos moldes do passado (num contexto de competição nacional),do que em evoluir para responder às necessidades do futuro da Região, afirmando-se pela diferença. A Proteção Civil da Madeira é uma instituição mais ‘militar’ do que ‘civil’, e a representação do IPMA na Ilha é o que normalmente se designa em inglês como ‘one man show’. Os laboratórios regionais com valências nestas áreas esforçaram-se por promover projetos financiados por fundos europeus, mas continuam desconcertados (com pouca relação com a universidade ou com os demais laboratórios). O cenário é análogo a uma manta de retalhos, cada uma delas guardada a sete chaves por um ‘guru’ dominante. Temos muito, de facto, mas tão retalhado, vale-nos de pouco!
Já rejeitámos os ‘serviços’ que nos chegaram de Génova, sob o nome de Cristóvão Colombo para os Espanhóis, com as consequências históricas conhecidas. Se continuarmos a promover uma ‘guerra de protagonismos’ interinstitucional, quem fica a perder é a sociedade civil. Podemos GRITAR em modo de auto afirmação que temos gestores responsáveis de dinheiros públicos, mas no novo contexto europeu, precisamos de convencer os nossos financiadores. Seremos cidadãos ‘europeus com plenos direitos’ quando tivermos atuações (não somente discursos) de igual grandeza!