Neste que é o meu último artigo deste ano que agora finda, queria aproveitar a oportunidade para, neste momento de passagem tão fortemente marcado, dar especial relevância ao processo de vivência de um novo ano, de perspetivar novos projetos que contribuam para promover desejáveis situações de equilíbrio e harmonia pessoal, profissional e social, esbatendo desigualdades e corrigindo assimetrias que a "crise" tem, infelizmente, agravado.

De facto, o tempo que vivemos confronta-nos quotidianamente com acontecimentos de alcance cada vez globalizante, o que implica que os fenómenos locais e regionais ganhem, assim, contornos cada vez mais plurais, exigindo novos olhares para a sua interpretação. É sob este pano de fundo e tendo presente o momento de viragem que percorre a nossa sociedade, que olhamos para o "novo" tempo que agora se abre, cuja configuração vai ser certamente moldada por um tempo e por uma história presente na nossa memória.

Ninguém estranhará que, neste momento de passagem, venha à lembrança o desejo de consagrar a nossa indizível vivência a um sentido existencial que ultrapassa a antologia dos acasos e une as múltiplas escolhas, ligadas entre si pelo fio ténue das diversas maneiras de ganhar identidade. É verdade que todas são identidades fugidias e até mesmo precárias. Mas não é assim mesmo que nós vivemos? Enquanto realidade histórica que somos (e que é a nossa identidade), muitas vezes, o tempo corrói aquilo que supúnhamos que era em nós como a natureza mesma. Facilmente, tudo se altera, desfaz ou até se perde. Mas se a memória do que se foi permanece, ou não está de todo morta, é sempre possível o milagre de algum regresso "a casa", ou seja, à revelação da nossa identidade.

Trata-se de sermos, no início de cada novo ano, uma espécie de navegadores por ruas estrangeiras e de inventar, através do que em nós é sofrido e às vezes até desejado, esta breve ausência ou definitivo adeus ao que se deixou e nunca nos deixa. Nem tudo, neste nosso novo rosário de vivências, resulta de um destino errante e nómada, mas antes releva da nossa vocação, já muitas vezes afirmada, de pertencermos a um povo que ao largo dos séculos derivou ao longo de mares e continentes por vontade própria e foi capaz de preservar, como por magia, a essência mesma de tudo o que abandonou ou perdeu. Por causa desta nossa quase absurda e sublime "identidade" guardamos, mesmo nos extremos da dúvida e desespero, a lembrança da "nossa pátria" e, com ela, o caminho de casa. É a vivência desta paixão que não nos deixa perdidos, não ofusca o laço com a essência da nossa vivência identitária que é mediada por mil e uma figuras e comportamentos pessoais, sociais e culturais que lhe dão uma consistência e uma estrutura mais coerente e, em última análise, mais resistente a todos os desafios que, em cada novo ano, emergem.

Nesta nossa navegação por ruas estrangeiras, não nos podemos deixar perder no labirinto de estradas, trilhos e formas, nem no desespero da banalidade dos dias. Temos de manter viva a perceção do mundo que queremos desenhar como projeto. Partir outra vez. Sempre. Guardar a esperança. Não esmorecer. Manter aceso o raio de luz.

Os dias correm com a pressa de um final de ano. Venha, pois, mais um ano…estamos preparados? Felizes? Que sentido pode ter tudo aquilo que fizemos? O que vou fazer a seguir? Projetos? Tenho os utensílios e as ferramentas de fazer o futuro? Tenho forças? Vamos aguardar mais um ano aprendendo a reconhecer a eternidade em todos os momentos. Um Bom Ano.