São inquestionáveis os avanços nos cuidados de saúde no último século, em especial no diagnóstico e tratamento das doenças, contribuindo para o bem-estar das populações, na generalidade dos países. Como constata a OMS, a mortalidade infantil diminuiu, a esperança de vida aumentou e muitas doenças são tratadas ou controladas.
Será interessante analisar como chegámos até aqui. Há 2500 anos, na remota ilha grega de Cós, viveu Hipócrates, considerado o Pai da Medicina. Dele são as palavras como cirurgia, fratura, prognóstico, epidemia, bem como 70 textos nos quais postula conceitos médicos, muitos ainda atuais, baseando-se na observação empírica da doença. Escreveu sobre a "ética" médica (Juramento de Hipócrates) no qual, à abstinência do dano e da eutanásia associam-se os votos duma vida recatada, centrada numa "arte" médica humanizada.
Estes princípios foram aprimorados pela medicina árabe, algo pouco conhecido, mas pouco mudou até ao renascimento e a introdução do método científico. Novas descobertas técnicas, novos conhecimentos e melhor difusão dos mesmos, bem como mais recursos atribuídos à saúde, fizeram o que a Medicina é hoje. Mas a tecnologia deu-nos a (errada) convicção que tudo tem cura. Que cada nova técnica é melhor. Que tudo é confiável, desde que novo e diferente mas, como tudo na vida, há um reverso da medalha.
A comercialização da saúde, com o marketing associado, pode condicionar alguma prática clínica. O consumismo de algumas sociedades pode favorecer exageros e o excesso de informação pode ofuscar a clarividência dos cuidados de saúde. A tecnologia acabou por condicionar as qualidades humanas do prestador, a confiança do doente no sistema e ofuscou a noção de incerteza que a doença ainda apresenta.
Perante isto, houve que colocar um travão nesta espiral consumista, papel assumido pela Medicina Baseada na Evidência, que se impôs nos últimos 20 anos e, segundo a qual, a utilidade de cada procedimento tem de ser provada por estudos criteriosos, acima de tudo, estudos independentes. Resultam "guidelines", já transpostas para Portugal e que deverão ser referencia para médicos, enfermeiros e restantes profissionais.
Dois constrangimentos surgiram. O atual estrangulamento financeiro origina situações de racionamento, não alicerçadas nessa mesma evidência e a perda da mais-valia da relação médico/enfermeiro-doente pela despersonalização nos cuidados de saúde.
A Ciência é pois parceira da Medicina, na justa medida em que lhe proporciona clarividência e eficácia. Mas a Ciência não pode criar a ilusão que tudo é possível, desvirtuando o sentido humano da Medicina e as limitações intrínsecas da própria vida.