Cipriano Gouuveia «Olha, vais escrever o teu nome aqui neste postal, é para mandar para o nosso filho. Segura bem assim. Isso. Força. Força na caneta. Pronto… Já viste a rosa que eu te trouxe? É linda. Quando voltares para casa vais-me ajudar a cuidá-las». E neste edifício lugar de espera de esperança há homens a erguer novas construções. A mulher arruma tudo aquilo que trás consigo. Tira coisas de um lado para outro. Absorta numa espécie de mocidade. Como se estivesse num passado sempre novo. Ela arruma tudo com muito pormenor, talvez desse modo consiga apaziguar a realidade. Das suas mãos, os objectos que dispõe ressoam a chuvas e folhagens sobre campos de outono. Toda aquela azáfama reanimou o marido, ainda tentou erguer-se mas, lentamente numa dignidade que comove e assombra regressou para o inevitável repouso. Ali, à beira do leito, a mulher segura-lhe as mãos, acaricia-lhe o rosto. Depois, verifica o postal que há-de enviar para o filho que teve de admitir um outro país. É a vida, murmura, é a vida. E a cidade prolonga-se em todas as direções. E sobre o bulício ondeiam revoadas de pássaros e ao longe após o horizonte o mar espalha-se pelo firmamento acima criando esta enorme cúpula de ar onde todas as felicidades, todas as guerras e esperanças vão-se reconstruindo com o passar dos dias, das vidas. A mulher posicionou-se em frente à janela, diante da sua verdade. E apesar da imobilidade nota-se-lhe uma contida aflição. Provavelmente são os tais pássaros negros que advieram da distância e que agora precipitam-se-lhe pela memória adentro a dilacerar-lhe a alma. Esta cidade há-de ser sempre airosa. E nos últimos tempos uma profusão de novas arquiteturas tinham emergido e essa percepção torna ainda mais inquietante a noção de estar a findar mais uma etapa na aliciante e estranha viagem de sentir-se no mundo. É a vida. E é assim a vida. Murmura. Porém, instantes depois e como se nada tivesse acontecido, voltou, colocou um beijo no marido, despediu-se e foi-se embora. Nessa noite, quando a quietude alonga infinitamente os corredores e já não há ângulos a delimitarem, aconteceu algo quase inacreditável. Aquele homem que mal conseguia reagir, de repente começou a agitar-se. E movendo os braços no ar parecia querer interpretar a mesma liberdade do voo sobre o mundo. A certa altura, o movimento daquelas mãos transformaram-se numa verdadeira profusão de pássaros recém-libertos. Certamente que aquelas mãos levantavam um passado feito com valores, sustinham a terra que tanto amara, o movimento daquelas mãos talvez estivessem a dialogar com antigas tradições, a reencontrar-se com os antepassados, eram mãos cheias de amor, de dor, de uma vida que findava. Depois, lentamente foi-se aquietando, até que tudo ficou a pairar dentro de um silêncio insondável.