Ainda resultado das últimas eleições, há pequenos sinais de mudança que começam agora a dar nas vistas. E outros virão, não tarda nada. Bons e maus, certamente. Mas vejamos apenas um pequeno exemplo ontem denunciado de forma corajosa: alegadamente impedida de fazer um jantar solidário, que afinal vai fazer em Janeiro, a Casa do Povo do Porto da Cruz chegou-se à frente para denunciar que é vítima de “boicote feito pela Câmara de Machico”. Mais: acusa a Câmara de “má-fé” ao impedir que a Casa do Povo “exerça a sua actividade cultural” longe “de qualquer índole político-partidária”. Se o tempo fosse de Carnaval, estes argumentos até seriam de levar a sério. Mas não é o caso. É claro que a Casa do Povo é livre de se queixar, de criticar, de denunciar. Até é bom que o faça. A crítica é saudável. Mas tem de ser minimamente coerente, para não correr o risco de ser motivo de riso. Ninguém minimamente informado na Madeira desconhece a actividade político-partidária das Casas do Povo. Foi sempre assim. Um papel de que os outros partidos se demitiram e que é bastante bem utilizado e preenchido pela maioria há vários anos. Tanto que em alguns casos é difícil perceber onde começa a actividade da Casa do Povo e acaba a da Junta de Freguesia, a da comissão política do PSD local, a da JSD ou a da confraria. Mas a denuncia frontal assumida ontem tem um grande mérito: o de alertar para uma nova realidade. Mais importante do que saber se tem razão a Câmara ou a Casa do Povo, é assistir a esta nova dialéctica. É ver o pequeno poder que estava bem instalado a mexer-se na cadeira velha. É notar sentido crítico em quem sempre, ou quase sempre, se deixou dominar. É ouvir denúncias de onde só saíam elogios. É ver alguma acção onde antes havia estagnação.Isso, mais do que a poeira dos dias, é resultado de uma mudança que até pode não servir mas que era preciso experimentar. O resto são amuos passageiros que apenas denotam falta de experiência e sentido democrático. O resto são restos da Festa. Porque o tempo em que o poder estava ali, sempre à mão, esse tempo acabou. Durante muitos anos, os mesmos fizeram-se donos das Casas do Povo. Agora, o povo parece interessado em fazer-se de casa e um dia destes até vão perguntar quando é que há eleições para as Casas do Povo.