Enterraram-me.

Durante toda a noite fúnebre os meus livros arrumados três a três nas estantes iluminadas, velavam, como anjos de asas abertas ao que já não existia de mim eram o símbolo da minha ressurreição.

A Leitura é uma Amizade .

A leitura é uma amizade sincera, ainda quando se dirige a um morto, a um ausente, confere-lhe algo de desinteressado, quase comovedor. Além do mais, é uma amizade liberta de tudo o que faz as outras feias. Como todos nós, vivos, não passamos de mortos que ainda não entraram em funções, todas estas amabilidades, todos estes cumprimentos no vestíbulo, a que chamamos deferência, gratidão, devoção, e às quais misturamos tantas mentiras, são estéreis e cansativos. Além disso - desde as primeiras relações de simpatia, admiração, reconhecimento - as primeiras palavras que pronunciamos, as primeiras cartas que escrevemos, tecem à nossa volta os primeiros fios de uma teia de hábitos, de uma verdadeira maneira de ser que já não somos capazes de evitar nas amizades seguintes; sem levar em conta que as palavras ditas durante esse tempo, subsistem como letras de câmbio. E, depois de abandonados, não temos que pagar com o remorso de as termos deixado protestar.

« Descobri a leitura, descobri um diálogo incessante, descobri que o livro falava e que a minha alma respondia ».

Na leitura, a amizade é subitamente restituída à sua pureza inicial.

Com os livros não há amabilidade.

Estes amigos, se passarmos a noite com eles é porque temos realmente vontade. E muitas vezes acontece só os abandonarmos com pena. E, depois de abandonados, não temos nenhum dos pensamentos que estragam a amizade: O que pensaram de nós? - Não mostrámos falta de tacto? - Agradámos? - ; nem medo de sermos esquecidos a favor de outro. Estas agitações de amizade expiram todas no limiar da amizade pura e calma que a leitura é. Nenhuma deferência, também; só rimos do que diz Molière ( por exemplo ) pela medida exacta que lhe achamos; quando nos maça, não temos medo de ficar com um ar aborrecido; e quando nos sentimos decididamente fartos de estar com ele, voltamos a pô-lo no seu lugar com a rapidez que usaríamos se não tivesse génio nem celebridade.

Alguém caminha em direcção à solidão. Eu, não, eu tenho os meus livros.

A atmosfera desta amizade pura é o silêncio, mais puro do que a palavra.

Porque nós falamos para os outros, embora seja para nós próprios que nos calamos. Além disso, o silêncio não traz como a palavra, a marca dos nossos defeitos, dos nossos esgares. É puro, é realmente uma atmosfera. Entre o pensamento do autor e o nosso não interpõe esses elementos irredutíveis, refractários ao pensamento, dos nossos egoísmos diferentes.

A própria linguagem do livro é pura.

Sabemos deleitar-nos sucessivamente com os traços de cada um deles, sem ser preciso que sejam admiráveis, pois um dos grandes prazeres do espírito é discernir estas pinturas profundas e amar, com uma amizade sem egoísmo, sem frases, como que dentro de nós.

Renata Camacho