Na actualidade, centrar o fundamento da Bioética apenas ou principalmente no valor da vida humana (personalismo ontologicamente fundado?) parece-me não só imaturo como redutor e imprudente. Naturalmente que é o homem que cria o futuro das sociedades e do planeta (será?), mas tem de ter em conta que as outras vidas são tão importantes quanto a dele, nomeadamente a vida animal e a vida ambiental. A atenção a esta triangulação é fundamental no equilíbrio do planeta e consequentemente na qualidade e sustentabilidade da vida no grande ecossistema que o sustenta. Toda e qualquer acção que tenha reflexos nas pessoas, nos animais ou no ambiente deve ser alvo de prévia e aturada avaliação. Se o mundo contemporâneo veio revelar o valor da vida, a Bioética posicionou o homem em frente da necessidade de reflectir sobre este valor, colocando-o face a face com o seu compromisso com o carácter universal dos valores, no qual a vida se apresenta – não como o valor mais alto e nem como valor mais baixo, mas como um valor entre os valores. Situar o valor da vida entre outros valores, relacionando as escolhas subjectivas com o que há de objectivo no mundo dos valores, é a tarefa que a Bioética veio cumprir, residindo aqui a sua crescente importância. A Biologia, através da Medicina, veio dar o seu contributo para prolongar a vida, já a Filosofia passou a admitir a renovação dos valores como condição inerente ao amadurecimento ético da condição humana.
Fernando Rodrigues