Chovia em Santiago quando lá aterramos. Visitamos o Palácio de La Moneda, a Casa de Neruda , mausoléu de Allende… Aos vinte anos fui apoiante do Governo de Unidade Popular, constituído por democratas cristãos de esquerda, socialistas, comunistas e outros progressistas. O Chile era a democracia mais antiga do mundo, a par da Inglaterra. A esquerda subia ao poder por via eleitoral. Era a via pacífica para a transição para o socialismo. Cedo os serviços secretos americanos, foram criando condições para o derrube do Governo patriótico e de esquerda. A Unidade Popular tinha nacionalizado a banca, as minas e desenvolvia a educação pública, criava o serviço nacional de saúde, tudo isto era contra os ideais da poderosa América . Em 1973, realizou-se o Congresso da Oposição Democrática , em Aveiro, que terminou à bastonada e com prisões arbitrárias. Encontrava-me no serviço militar em Sacavém, quando o meu camarada deu-me conhecimento do derrube do Governo no Chile e do golpe militar de Pinochet. Milhares de democratas foram torturados e mortos. Para quem lutava em Portugal pela democracia, o golpe fascista no Chile reforçaria as ditaduras em Portugal, Espanha e na Grécia . Quarenta anos depois do derrube de Allende, sobe ao poder Bacelet, com mais de 62,2% de votos, apoiada por democratas cristãos de esquerda, socialistas e comunistas! Esta vitória não representa uma «guinada» radical à esquerda, mas é um programa progressista na economia, na educação, na saúde e pretende diminuir o abismo entre ricos e pobres. Bacelet , afirmou que esta não era uma vitória pessoal, mas o triunfo de um sonho coletivo. Não sei porque razão nenhum jornal madeirense, tenha falado da vitória da esquerda no Chile. Menos entendo que os blogs de madeirenses, ou activistas do facebook desta terra, nenhum tenha falado desta mudança no Chile.

Dírio Ramos