Nesta altura do ano é costume fazer-se um balanço. Mas em vez de recapitular o ano que em breve termina, escolhi relembrar (vasculhando nos arquivos da minha vida) três ilustres madeirenses, com os quais tive o privilégio de privar em dias idos, amplos e claros. Ilustres, mas praticamente esquecidos por esta sociedade e cultura insulares, onde, de tempos a tempos, têm emergido, quais insólitas ilhas, indivíduos profundamente singulares, que, por sobressaírem da modorra provinciana dominante, são relegados a um certo olvido, para que o seu exemplo transformador não ameace a áurea mediocridade instalada a todos os níveis, do político ao académico… Relembro Octávio de Marialva, velho amigo da minha família materna, em cuja casa passei muitas tardes mágicas na minha infância. Personalidade multidimensional (como um Pessoa), poeta, ensaísta, místico e filósofo. Precursor, nesta terra, dos estudos orientais, da dietética natural, e de outras disciplinas avançadas. Viajante incansável, lembro o fascínio que era ouvir os relatos das suas viagens pelo oriente (um dos poucos portugueses a visitar o Tibete, nos anos 30). Relembro Irineu Novita Teixeira, saudoso amigo, engenheiro geógrafo, urbanista avançado, divulgador da cidade linear e da renaturalização urbana, verdadeiro homem do futuro. Lembro as incontáveis tardes ganhas a conversar sobre a civilização do futuro. Jamais esquecerei o irrepreensível gentleman, sempre pronto a partilhar com um sorriso o seu assombroso conhecimento sobre as ciências, a vida, a Ética e o mundo. Relembro Avelino F. Costa, as tertúlias do café «O Pátio», as conversas sobre poesia e utopia, sobre a vida que se transfigura. Poeta maior, Nietzschiano lúcido, falta divulgar a sua forte poesia… Destes três madeirenses esquecidos, só sobre Marialva foram já iniciados pequenos estudos biográficos, sobre I.N. Teixeira e A.F. Costa paira ainda o silêncio ignaro da estultícia hegemónica… A vida também é feita destes encontros luminosos, e dela são estes encontros e estas memórias plenas de futuro o que de melhor se leva.
Miguel Santos Cooperante da ‘Espaço às Artes - Cultura Ponto Zero’