É a aragem cortante como uma navalha que neste Outono a mim me restitui vida aragem que eu há anos conheci na branca luz quando á noite pelas ruas punha os pés nas pedras povoava de passos as calçadas ao luar dos candeeiros. Estão a ver há coisas como nuvens há toda a dimensão de uns olhos de criança há domingos manhãs há manhãs de domingo e eu a uns talvez oito mil metros de altitude começo de repente e sem remédio a olhar o silêncio daquela criança que dança que não só nunca se cansa como á volta se amansa a revolta revolta das folhas fustigadas pelo vento em dias de uma tão densa destruição. Tive um passado e tenho apenas tê-lo tido nenhuma noite e toda alegria do sentido e hoje é muito tarde para convencer-me o irreal real de voar sobre as nuvens Não quero não senhor coisa nenhuma mais eu fui exclusivamente estes sentidos corporais Há um mar lá ao fundo destas nuvens há ter havido alguém como eu há eu ser um pretexto para em mim a vida haver breves instantes sido As nuvens são uma areia muito branca e há água lá ao fundo e posso preparar-me para purificar-me pela água de todo este imundo mundo As nuvens aqui têm lá ao fundo o mar as nuvens são a terra e a terra o ar e é tudo como atravessar o longo corredor da noite num comboio comprido que a perfura assim a vida volta a ter para mim sentido Aqui eu fui feliz aqui fui terra aqui fui tudo o que em mim se encerra aqui me senti bem aqui o vento veio aqui gostei de gente e tive mãe em cada árvore e até em cada folha aqui enchi o peito e mesmo até desfeito eu fui aquele que da vida vil se orgulha Aqui eu sempre aqui me senti bem aqui quando sofri eu fui feliz pois ao sofrer senti-me ser alguém aqui me senti mal mesmo se bem aqui meu deus morri meu deus ou minha mãe meu deus um mar de nuvens e nas nuvens eu meu deus as minhas nuvens eu ninguém As árvores ao vento os cabelos ao vento as folhas verdes os cabelos loiros folhas sombrias tristes quase humanas cabelos naturais e quase minerais tudo deve visivelmente a vida ao vento E aqui neste dia é no inverno que o verão é na verdade o verão Eu cercado de sombra inverno e chuva vejo através de um espelho vir até junto de mim o verão Criança ou inverno palavras que são coisas peço perdão coisas que são palavras Criança mar ou verão trazidos pela mão da tão vilipendiada mas concisa como uma granada rima em ão ingressam no poema donde na verdade são Vem até mim criança filha do mar vem com o vento traz contigo o tempo separa esse teu corpo pura aparição da espuma flor da onda indício de água Mesmo através do espelho vem não temas invadir sequer a solidão de quem de livros lápis folhas se rodeia porque é condição sua estar sozinho e é afinal a solidão sua profissão Esse mar essa praia esse azul são coisas minhas e mesmo que porventura não se encontrem registadas em meu nome foi aí nessas águas que um dia nasci e se ainda não morri posso morrer um dia que mais eu queria confundir-me nessas águas das quais um dia quase já cheguei a fazer parte ou nem mesmo é caminho pois o mar e tu são sendo dois momentos o mar ou tu somente O mar é mais o mar devido a ti o mar vive é viril e vertical porque emerges das ondas sorridente e natural Tudo parou e tu na tarde corres e eu misto de livros e de dias eu que faço da vida uma questão comigo que luto corpo a corpo com a minha condição que fazer deste verão agora inverno Mas há a voz dessa criança na distância voz virginal possível sobre a terra inocência e assombro confiante confiança Que hei-de eu dizer a essa criança que lhe digo da vida que promessa de paz posso poisar nessa cabeça? Que peso pesa já sobre esses ombros quanta seriedade há já nos passos que me a trazem ao fim do dia desde a escola a casa Como dizer-lhe que tudo é esta terra que outra terra que houver é desta terra que há gestos inúteis nas melhores das mãos que de nada tem no fundo algum sentido que é escusado que não há saída que se qualquer sentido tem a nossa vida é só no fundo ver passar o tempo pensar alguma coisa olhar as folhas enquanto a noite súbita não desce? Como dizer-te que não há coisas por detrás das coisas? Como dizer-te que não não e renão? E a noite curva o dorso sob as árvores ante a solenidade do inverno A noite domestica-se a si mesma e convive com as ruas e mora como nós numa cidade A noite agora continua o dia como que se alumia e se envergonha de ser escura não é apenas pura negação da luz A noite é acessível amolda-se a nós há agora uma noite pronta pra vestir A noite surpreende-nos na falta de surpresa E procedo por fim á sondagem silenciosa desta noite de Dezembro rente às árvores de sombra aos hálitos de luz que aqui ali definem a tão pura escuridão lá onde ambiciono não ter chão no chão que então terei até ser assim chão como esse chão que sou.

Renata Camacho