Juvenal Pereira Olá, avô, aqui está a escrever o seu neto amigo para saber se tudo está bem consigo. Sei que não está, por isso é que tanto gostava que o avô viesse para cá. É verdade que por aqui também há crise, a vida não corre em grande ritmo, mas, pelo menos, não estamos falidos. Sei que a sua saúde não passa por bons momentos e já lhe custa pagar os medicamentos. Que tem filhos que não estão a trabalhar e vê os netos a crescerem e a estudar e, mesmo que queira, não lhes pode ajudar. Compreendo o seu pesar…sabendo, como sei, que até na reforma lhe estão a cortar. Avô, isso é mesmo de “amargar”! Depois dos descontos que fez, após tantos anos a trabalhar, deve ser triste pensar que nem no Estado pode confiar. Mas, acalme-se, algum dia vai mudar. Quanto à tia Aurora já soube que trabalha mais uma hora.Com tanto desemprego por aí, tanto jovem à procura de trabalho todos os dias, darem mais uma hora serviço à tia, foi uma dádiva da Virgem Maria! Também não era justo o governo do salário e dos subsídios andar-lhe a tirar, a tirar, e, em contrapartida, nada lhe dar. E sempre é melhor ela estar mesmo “sem fazer nada” mais uma hora no serviço do que estar em casa a aturar os filhos e o marido. Lá isso foi bem visto. Vê-se que foi feito por gente de juízo! Avô, consta por aqui que o governo aí, esta a se preparar para legislar no sentido dos idosos e reformados que queiram emigrar. Até apoio lhes vão dar. O avô nem pense recusar. Aceite e venha para junto deste seu neto amigo que já tenho um plano concebido. Vamos formar aqui um novo partido! Não se importe em saber como está a sua cabeça, nem com a sua idade. Não é problema nem a velhice nem a senilidade. Eu vejo aqui, velhinhos, já “meio-chonés”, caquéticos, uns foram simples trabalhadores, outros engenheiros, doutores e até médicos, em funções politicas e estão muito bem de vida. Aliás, não há coisa melhor do que trabalhar na política! Só têm hora de saída, não têm de entrada, alguns acumulam a reforma com a mesada, no fim do mês levam um balúrdio de dinheiro para casa! E o avô não precisa de fazer nada de bom ou de novo, basta dizer – para toda a gente saber – que está ali para defender os interesses do povo. Venha avô. Eu já estou a ver nós e o nosso partido a nadar em prosperidade e até a fazermos obras de caridade. Claro que, “a caridade de um político trás sempre água no bico”mas,pode crer, ficamos bem vistos. Encerro a cartinha, com um abraço para si e para toda a família e tanto para vocês, como para os amigos, vizinhos, enfim todo o “povo” um Bom Natal e Feliz Ano Novo!