O Papa Francisco tornou público, aquele que é o documento doutrinal fundador do seu pontificado. Um documento notável que servirá de guia à ”sua” Igreja no qual adverte, entre outras coisas, para a necessidade de esta voltar às origens do Cristianismo. No referido documento o Papa Francisco acusa também o Capitalismo de contribuir para o agravar das desigualdades e critica este sistema económico e a primazia do dinheiro sobre o ser humano. O referido documento é uma Exortação Apostólica que está dividida em cinco capítulos, por sua vez desdobrados em duzentos e oitenta e oito pontos. De entre estes, o eco público ressoou, quase exclusivamente, no âmbito do que o Papa designou como “alguns desafios ao mundo actual”. Efectivamente, o Sumo Pontífice trata aqui da condenação de uma “economia de exclusão”. Tal veredicto é sumário e passo a citar: “Também hoje devemos dizer não a uma economia de exclusão e de desigualdade social”. Nesta Exortação Apostólica (A Alegria do Evangelho), tornada pública no encerramento do Ano da Fé, mais propriamente no dia em que se celebra a solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, tem alguns subtítulos bem sugestivos: “Não a uma economia de exclusão”; “Não à idolatria do dinheiro”; “Não a um dinheiro que governa em vez de servir”; “Não á desigualdade social que gera violência”. Perante os sérios desafios do mundo actual, Francisco assume uma voz de denúncia. O Papa diz, repito, que a economia de exclusão mata; que é implorável ser hoje mais importante uma descida na bolsa que a morte de um idoso com frio, deitar comida no lixo quando há gente com fome ou excluir pessoas como se fossem descartáveis… Com a crise financeira, criámos novos ídolos, o dinheiro e o bem-estar anestesiam-nos, vivemos na ditadura de uma economia sem rosto, que nega a primazia do homem e o reduz a necessidades consumistas. Vivemos sob a tirania dos mercados e da especulação financeira, á qual se junta a corrupção e evasões fiscais á escala mundial. O Papa incentiva os peritos financeiros e os governantes a não excluírem Deus nem a esquecerem os pobres, porque, “o dinheiro deve servir e não governar!”. A dimensão social da evangelização deve influenciar a vida na praça pública. Neste sentido, Francisco apela ao combate das causas estruturais da pobreza e á promoção de um desenvolvimento integral dos pobres a partir de uma nova mentalidade que dê prioridade á vida de todos em vez da posse dos bens por parte de alguns. E o clamor dos pobres, não é apenas por comida, mas também por educação, saúde, trabalho e salário justo. O Papa, sem poupar nas palavras nem usar outras mais neutras ou dúbias continua: instalou-se uma nova tirania, invisível, consequência das ideologias prevalecentes que consagram a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Segundo o Papa, por detrás desta atitude está a recusa da ética e de Deus. Ele próprio acaba por se intercalar na equação quando afirma: “O Papa ama a todos, ricos e pobres mas tem a obrigação, em nome de Cristo, de recordar que os ricos devem ajudar os pobres”. De facto, nesta Exortação, as denuncias não poupam nas palavras: “enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela “minoria feliz”. Este desequilíbrio provém de ideologias que “negam o direito do controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum”. O actual sistema, critica, “tende a devorar tudo para aumentar os benefícios” e qualquer realidade mais frágil, como o meio ambiente”, fica indefesa perante os interesses do mercado divinizado. Ao lermos esta Exortação temos de concluir que o Papa escreve de forma corajosa sobre a nossa sociedade. Este documento pragmático e doutrinário é uma luz e um caminho. É uma proposta alternativa ao pensamento único. Este alerta do Papa Francisco deve ser assumido por todos pois cada vez mais é necessário garantir dignidade ao ser humano. “O capitalismo selvagem tem sido uma fábrica de sofrimento. Todos temos direito a uma vida com direitos, justiça, liberdade, prazer e felicidade. Os privilégios de uma minoria têm esmagado os sonhos de uma maioria, que também são filhos de Deus”.
José A. Roque Martins