Violante Saramago Matos Os efeitos do temporal recente não fizeram acordar os responsáveis para a realidade que têm à frente. A Vice-Presidência (a Presidência não se dignou aparecer) afiança que as ribeiras (que nem foram postas à prova) se portaram bem!; quanto ao essencial - a salvaguarda de pessoas e bens - passou-lhe completamente ao lado. O que sabemos é por demais elucidativo: - A marina de Machico foi indiscritível local de pavor, destruição e morte; - O porto do Funchal deu nota das suas fragilidades acrescidas pelas obras em curso: o mar arrastou para a ‘praia’ à frente do hotel Porto de Santa Maria antifers e tetrápodes, criando uma barreira; a zona do Cais sofreu forte assoreamento; a excessiva ondulação dentro da marina coloca a dúvida: a entrada da água para dentro desta infraestrutura está, ou não, facilitada pela alteração do comportamento do mar dentro do porto, em resultado da deslocação da muralha de bombordo à boca da marina e da mudança da foz da ribeira de S. João?; e, já agora, estas alterações têm ou não consequências na segurança dos navios atracados?; - Santa Cruz não escapou: o pavimento da promenade (a ligar a vila ao cais do aeroporto) foi basicamente destruído; a plataforma leste desse cais (que já este ano tinha aberto um grande buraco na muralha e no pavimento e que, apesar dos avisos, não foi reparado) ficou seriamente danificada, pondo claramente à prova erros de projecto e de construção; o porto de recreio é hoje um vazio: o finger de apoio retorcido pela violência do mar, submergiu, e os 18 barcos que lá se estavam afundaram ou foram atirados para o calhau, partidos. São precisas respostas. Porque é que os avisos meteorológicos incidiam especialmente nas zonas montanhosas que, note-se, foram objecto de alerta vermelho na manhã de 3ª feira, enquanto só pelo meio-dia foi alargado para o mar? Deixar dilatar no tempo um aviso laranja (existente desde 2ª feira) não cria um certo grau de facilistismo que, depois, se veio a pagar tão caro? Não é claro que os avisos para a navegação têm que ser feitos com mais tempo, para tornar possível qualquer manobra de protecção de embarcações? Se na 2ª feira a agitação marítima já era tão forte que dificultava seriamente a retirada dos barcos, na 3ª feira ninguém conseguia entrar ou sair dos portos. Os portos, as marinas e outras obras marítimas estão calculadas e construídas de acordo com as regras de segurança exigidas? Esta situação não surgiu do nada; desde a passada 5ª feira que o site Windguru previa temporal no mar, com a agravante de tanto a direcção do vento (muito forte) como a da ondulação (cerca de 5metros) serem de sul - que é, como se sabe, a situação mais perigosa para a costa, entre o Funchal e o Caniçal. Porque é que estes dados não se reflectiram no comportamento dos responsáveis? Algumas coisas começaram a mudar. Mas a aposta na responsabilidade, na segurança e na prevenção tem ainda um longo caminho a percorrer.