António Ferreira Sobre Nelson Mandela, recuso-me a glorificar a persona, dar-lhe um estatuto de semi-deus, com palavras cheias de grandiloquência oca. Olhando para aqueles que recriminam Mandela como um mero terrorista, um homem que usou a violência para fins políticos e que nunca mostrou uma gota de arrependimento por aquilo que fez na clandestinidade, lembro a estes, que Nelson Mandela foi um homem que tentou executar um projecto político bom, e como foi apenas e tão-somente um homem, não o podemos desprezar por ter fracassado. E de que fracasso estamos a falar? Esta questão remete-me para o frisson que envolve as resoluções das Nações Unidas de 1987 e tudo aquilo que aconteceu depois em África do Sul, país onde reside uma imensa comunidade madeirense. A união pacífica dos cidadãos sul-africanos, a prosperidade deste povo, o bem daquela comunidade está a ser deturpado de forma maligna por uma elite corrupta, que não tem a mais pálida consideração pelo legado político de Mandela - e já agora, convém não esquecer, de Frederik Willem de Klerk. Tive oportunidade de prestar atenção a discursos de ambos e ao esforço descomunal - ou por mais precisas palavras, sacrifício pessoal - que ambos empreenderam, tentando criar laços, mitigar o ódio ou construir pontes de entendimento. Um legado certamente meritório, e diria até, preenchido por heroísmo, que a actual elite faz questão de não dar continuidade. Se queremos valorizar Nelson Mandela, não podemos fechar os olhos ao que está a acontecer em África do Sul. Se o pressentimos como um mentor, como uma referência, temos de materializar a mensagem construtiva que este deu voz. Honrar um homem é perpetuar o seu lado bom, tentando que este resulte naquilo que foi a sua primordial e intrínseca vontade. Não é obliterando misérias nas palavras que se fazem heróis, é nos actos. Por fim, esquecendo o plano do idealismo, temos nossos conterrâneos emigrados naquelas paragens. Seria bom prestarmos atenção aos seus dilemas e dificuldades, afinal estes mesmos dilemas e dificuldades, são tão deles como nossas. Devemos respeitar todos os povos, mas se ignoramos os nossos - um emigrante não deixa de ser madeirense por abandonar o arquipélago -, não somos nada e não merecemos ser respeitados.