É forte a carga semântica da palavra lealdade. Associamo-la de imediato a verdade, honestidade, nobreza de carácter, honradez, fidelidade à palavra dada. E a ilustrá-lo, à memória vêm episódios da História, como o de Egas Moniz, o aio de D. Afonso Henriques e o seu gesto simbólico de ir a Toledo, com a família, de corda ao pescoço, oferecer a sua vida e dos seus, em resgate da palavra dada, numa promessa não cumprida ao então rei de Castela, sobre a submissão do belicoso príncipe português, a troco do levantamento do cerco castelhano a Guimarães. Não estamos no século XII (os cercos hoje são outros) mas nestas últimas semanas, foram muitos os cidadãos deste país que, num ritual formal, verbalizaram a fórmula simbólica da lealdade solenemente juramentada nas centenas de actos de tomada de posse dos novos órgãos autárquicos. E no entanto esta não foi apenas mais uma eleição autárquica, o que conferiu um toque especial a estas cerimónias de instalação dos novos edis.

Em democracia, a mudança política não tem nada de extraordinário. Trata-se da mais natural ordem das coisas! Não é saudável ser sempre a mesma força partidária a ganhar eleições. É natural o girar da roda da fortuna, ganhar e perder não são em si valores absolutos. E o poder é tão só mais uma efémera circunstância validada a prazo; o que é perene e imutável são os valores da participação cidadã e o imperativo de atender aos pequenos grandes problemas das pessoas e das comunidades, esses sim mutáveis e complexos, a que urge responder com equidade e isenção, ainda que com pequenos passos. As pessoas sabem que a hora é de escassez financeira e parcos os recursos existentes. É consensual a opinião sobre o início de um virar de página no que concerne ao poder autárquico, para as maiorias e as oposiçõeos, unidos que estão no mesmo juramento de “cumprir com lealdade”, a coisa pública. E isso, nestes momentos de grave crise económica e social, vai para além de convencionais textos programáticos, promessas eleitorais, cadernos de intenções.

Se já muito se disse sobre a surpreendente vitória de candidaturas de cidadãos independentes das quadraturas partidárias, ao invés da rotina que marcou tantos actos eleitorais passados, não será demais recordar lições da nossa novel história recente, para melhor entender os contextos que se nos colocam. Desde logo aprender que a legitimidade formal do número maioritário de votos não dá o direito de insultar, humilhar, achincalhar o adversário - ainda que haja insultos que tenham sabor a elogio, por ostentarem a marca da diferença que orgulha quem afirma a sua convicção! E nada justifica a vazia troca de oratória crispada, ofensas e injúrias. Perante a efemeridade da vida, todos somos “pobres diabos” e a “escumalha” às vezes surpreende em elevação cívica, honradez e sentido de Estado. Também entender que em democracia, a diferença de opinião é uma benesse, mais do que as vozes doces dos interesseiros, de cerviz dobrada, céleres na anuência, no elogio e no aplauso. Há apoios que mais vale rejeitar. E que vencer uma eleição, assumir um cargo político implica privilegiar o confronto de ideias, o exercício do contraditório sério e a pluralidade de opiniões sobre o que é o interesse público, em benefício da qualidade da democracia e da polis. Adentro do estado de direito não há verdades absolutas. Já se viu aonde levaram condutas e atitudes pontuadas de orgulho, arrogância, calculismo e tacticismo eleitoralista de efémeras afirmações de poder: estamos pobres, falidos, desesperançados. Por onde andou a lealdade e a confiança depositada pelo povo nos eleitos?

Manda o consenso democrático que o poder decisório pertença a quem obteve a maioria dos votos expressos, além de efémeras vaidades e egos pessoais, ou até de eventuais crenças em castas aristocráticas, predestinadas para o exercício do poder. Em democracia o poder é do povo, pelo povo e para o povo. E cabe ao povo decidir em quem delega o seu exercício, numa legitimidade limitada, no tempo e na expressão, pois ter maioria ainda que absoluta não confere direito a olimpicamente excluir as forças minoritárias. O povo já o entendeu e cansou-se, demonstrou que tanto confere poder como o retira com o seu voto, segundo a avaliação que faz de quem são os “Homens Bons”, os líderes a quem reconhece prestígio e competência para entregar o báculo do exercício da política em favor do bem comum, numa legitimidade por quatro anos.

Mas o exercício do poder repousa sobre a tendência humana para o erro, e a democracia, como a sociedade, não é feita de anjos. Não é impunemente que se governa e a praxis política pode colidir com a virtude e a honestidade. Será possível acautelar oportunismos, populismos, seguidismos, servilismos? O que se entenderá por cumprir com lealdade as regras do compromisso democrático? Poder-se-á precaver a mentira, o jogo duplo, os momentos de dúvida, os dilemas das tomadas de decisão, as inevitáveis dissidências, a desilusão, os ataques vis dos detractores de boas ideias, o afiar das garras dos adversários para a desforra? Escapar à traição dos eternos Brutus? No final dos próximos quatro anos, a responsabilidade do caminho percorrido pela acção construtiva e destrutiva do tempo será repartido entre quem executou a legítima decisão política e quem exerceu a não menos nobre função de a fiscalizar. A democracia faz-se de poder e oposição. Haja lealdade e elevação ética, porque esta não é a hora de egoisticamente agarrar na bola e levá-la para casa impedindo o jogo ao grande número! Ou de lavar as mãos como Pôncio Pilatos!

Júlia Caré