
Por muito natural que fosse a reacção do PSD de Jardim na ressaca pós-eleitoral, ou seja, pressionar politicamente de todas as formas e feitios as autarquias perdidas para outras forças políticas e movimentos de cidadãos, confesso que esperava uma atitude mais inteligente do actual Executivo madeirense. Misturar questiúnculas de guerrilha política com o plano da governação nunca acaba bem e só penaliza as famílias madeirenses. Infelizmente é o que tem acontecido sistematicamente após a derrocada autárquica social-democrata e é disto exemplo a mais recente trapalhada em torno da ordem para mandar executar as dívidas das autarquias à Empresa de Electricidade da Madeira.
É absolutamente incompreensível como é que uma pessoa com a envergadura política de Alberto João Jardim dedique o seu tempo não a governar, mas a tentar negar acções, por todos os meios, seja através de comunicados, notas, esclarecimentos, via órgão oficial do regime JM, etc. Entre quarta e ontem foram vários os comunicados com palavras agressivas e termos impróprios para gente adulta, expressos não contra o DIÁRIO, mas em última análise contra as populações, porque se as anteriores vereações sociais-democratas das autarquias não pagaram as contas da luz (e sabe-se lá mais o quê...) e estas tiverem de pagar (tudo de uma vez) quem acabará por ser mesmo penalizado é o povo madeirense.
Um dos comunicados, em que Jardim explica que executar não significa executar patrimonialmente, é inacreditável, aliás, um comunicado enviado pela presidência do GR depois do DIÁRIO ter apresentado um documento que prova que o presidente do Governo Regional da Madeira mandou fazer relatório e executar dívidas das autarquias.
Para quem, entre muitas outras pessoas, ironizou com o uso da palavra “irrevogável”, fica mal - muito mal - dizer que executar não significa executar. Afinal, os despachos de um qualquer governo são para executar. Ou será que há despachos que não são para executar? A pergunta é pertinente. Foi o que fiz. Segundo o dicionário, a palavra execução tem sua origem na palavra em latim ‘exsecutio’, tendo a parte final da palavra sofrido evolução para “ção”. O sufixo ‘ção’ é um sufixo nominal que se junta a um verbo para dar origem a um substantivo. Diz que sugere a acção ou o resultado da própria acção. Por exemplo, a execução deste trabalho de empreitada está a demorar muito (no sentido de realização). Outro exemplo, mais em termos culturais, uma área que prezo muito: a Orquestra Clássica da Madeira executou magnificamente este tema de Beethoven (interpretação musical). Outro ainda: o processo de execução das dívidas deverá ser feito o mais depressa possível (obrigar ao pagamento de uma dívida).
Na prática, o efeito é o mesmo, porque para executar o despacho é o mesmo que executar as dívidas. Isto porque ou muito me engano ou o despacho existe para fazer cumprir o pagamento das dívidas. Por um caminho ou por outro, por muito que recorra a dotes de estilista da língua, o efeito é sempre o mesmo.
No reino das palavras, e sobretudo da política, a manipulação é uma forma ardilosa de enganar. Tudo porque quem governa, quando mistura política, engana sobretudo com a verdade, algo bem diferente do que ser enganado com uma mentira. Ou seja, há falsidades que, de tão escancaradamente óbvias, nunca escapariam à atenção da mais desprevenida vítima.
E por estes dias, em que quase tudo o que é dito pelos políticos (sobretudo os que governam cá e lá) colide com a realidade, é preciso ser interventivo e chamar os bois pelos nomes. Em primeira instância, quem tem maiores responsabilidades são mesmo os militantes que escolhem os líderes dos diferentes partidos, pois estes, sim, devem ter cuidados redobrados com as falsas promessas miraculosas dos que aí ainda estão (como se vê) e dos que querem vir ser chefões. Antes, devem julgar o carácter das pessoas e o currículo, para que depois não aconteça o que nos está a acontecer, repito, cá e lá: gente que se governa e que claramente nunca esteve preparada para pensar no bem-comum, antes sim, executar (ou mandar executar) para alcançar o seu próprio bem-estar.