A Região escandalizada. O País chocado. O Mundo enervado. E tudo porque um velhinho simpático, com ar de quem estava com os copos, resolveu fazer uma patetice qualquer sobre a forma como Cristiano Ronaldo encara o jogo. O comandante da Selecção ficou ofendido, o clube reagiu, o País protestou e a Região ofendeu. Tudo em poucas horas e de nada valeram a Blatter os pedidos de desculpa. Errou, apanhou com as consequências no fim de uma longa carreira no mundo da bola. E a crítica, severa, não quer saber se a conversa era entre estudantes, se o homem apenas queria mostrar como se faz rir os netos, se é um idoso que merece respeito. Nada disso, todos lhe caíram em cima de forma impiedosa.
Eu próprio fiquei chocado com o gozo e, mais do que a versão teatral da coisa, sobretudo com o conteúdo do que disse o patrão do futebol mundial. Imaginem que era Cavaco Silva a dizer que preferia Passos Coelho a António José Seguro, comentei eu indignado. Depois, mais calmo, apercebi-me da asneira que acabara de dizer. Tal como Blatter, também Cavaco se farta de dizer que prefere Passos a Seguro. Apenas com três diferenças: o sisudo Cavaco não faz rir ninguém, não bateu continência e, a mais importante, ninguém se indigna quando isso acontece. Em Portugal, quando o presidente é sectário, quase achamos piada e seguimos em frente. Fazemos o que ele disse para fazerem os políticos da oposição na Madeira em relação a Jardim: deixem lá, o homem está quase a sair do Governo, tenham paciência. E tiveram, pelo menos até 29 de Setembro.
E foi ainda quando toda a gente chamava outros nomes a Blatter que, tal como o decano dono da bola, soubemos que o nosso decano dono da política doméstica também goza connosco à grande e à francesa. Literalmente. Já poucos acham piada às viagens de Jardim, mas todos pagam e quase ninguém diz nada.
Tenho de admitir que mais do que a atitude infantil do velho Blatter, enerva-me profundamente a falta de respeito do nosso velho presidente. Está cansado para governar, mas não se cansa de viajar. E o povo a pagar. Convém lembrar aos mais distraídos – e são tantos! – que em dez meses o presidente do Governo Regional fez pelo menos nove viagens para fora da Região. Nove! Não foram duas ou três, foram nove, o equivalente a uma por mês, se considerarmos que o homem também tem direito a férias e que em Agosto esteve no Porto Santo, numa casa também em grande parte paga por nós.
Citando o próprio Jardim: “Está tudo grosso”?. Então um presidente dá-se ao luxo de ir descansar quando quer, de trabalhar quando lhe apetece, de inaugurar quando lhe dá vontade, de mandar e desmandar quando acorda para aí virado e a malta deixa andar?! Como se fosse normal uma Região que bateu no fundo, onde há tantas famílias separadas pela emigração, onde há tanta conta por explicar, tanto desempregado a penar, tanta gente a contar moedas pretas, tantas faltas básicas na saúde e na alimentação, tanto desespero e até muito suicídio... e no meio deste caos, sua excelência arranja a malinha e vai arejar a cabeça para outro lado, longe dos pelintras e patas rapadas que o elegeram.
Não sei o que faz o presidente tantas vezes lá fora. Às vezes, quando tem pachorra e normalmente depois de questionada pelo DIÁRIO, a Presidência manda uma informação, mais vaga do que o boletim metereológico, a dizer que foi tratar de questões como o poder local na Birmânia, os transportes marítimos no deserto, o buraco do ozono visto de cima. De concreto, até pode fazer muito mas não se sabe de nada e não se nota nada. Nem nos informam de nada.
Também não sei, nem quero saber – nem tenho mesmo nada que saber – da vida pessoal do presidente. É lá com ele. O que sei é que isto que nos anda a fazer, não se faz. É falta de respeito. É abuso. É descaramento. É puro gozo. Governar assim é coisa de crianças, é a profissão de sonho de qualquer um.
Volto ao escândalo das viagens. Nove viagens! Esta semana o presidente fez a sua nona viagem deste ano. Atendendo ao esforço que tem feito, sugiro que se mude a Festa da Anona, para a Festa da Nona, da nona viagem presidencial em apenas dez meses. Mas tem de ser depressa, antes que chegue a décima. Não é o imposto, é a décima viagem. Que, de certeza, vai chegar ainda antes da Festa.
Nós aqui com um presidente feito caixeiro-viajante, e anda a Região escandalizada e o País chocado com a brincadeirinha infeliz do senhor Blatter...