O cume. Eis o acaso, purpúreo, ferido por seus próprios cristais, que o sangram por toda a parte. Ante o seu esplendor, o pinhal verde torna-se agreste, vagamente enrubescido, e as ervas e as florzinhas, acesas e transparentes, embalsamam o instante sereno de uma essência molhada, penetrante e luminosa.

Paro no crepúsculo. Os seus olhos de acaso são negros, abeira-se mansamente de um charco de águas de carmim, de róseo, de violeta; mergulha suavemente a boca nos espelhos, que parece que se liquefazem quando ela os toca, e pela sua sombra há como o passar profuso de sombrias águas de sangue.

A paisagem é conhecida, mas o momento transforma-a e fá-la estranha, arruinada e monumental. Dir-se-ia, a cada instante, que vamos descobrir um palácio abandonado…A tarde prolonga-se para além de si mesma, e a hora, contagiada de eternidade, infinita, pacífica, insondável, triste.

Salta, ágil e elegante, rola na erva em flor. Entre as crianças, é um brinquedo! Como caminha devagar, parando, iniciando, de súbito, uma dança meiga e triste.

Saio para o horto e agradeço por este dia azul. Concerto livre de bicos, fresco e sem fim! A andorinha ondula, caprichosa, o seu gorjeio no poço, o melro assobia sobre a laranja caída, de fogo, o verdilhão palra no sobreiro, o chamariz ri longa e finalmente no alto do eucalipto, e, no pinheiro grande, os pardais discutem desaforadamente.

Que manhã! O Sol põe na terra a sua alegria de prata e de ouro, borboletas de cem cores brincam por toda a parte, entre as flores, dentro de casa, na fonte. O campo abre-se em estalidos, em crepitações, num fervedouro de vida nova e sã.

É como se estivéssemos dentro de um grande favo de luz que fosse o interior de uma imensa e cálida rosa acesa.

Olha, quantas rosas caem em toda a parte: rosas azuis, rosas brancas, sem cor…Dir-se-ia que o céu se desfaz em rosas. Olha como se me enchem de rosas a fronte, os ombros, as mãos…Que farei eu com tantas rosas?

Sabes, acaso, de onde é esta branda flora que eu não sei de onde é - que todos os dias enternece a paisagem e a deixa docemente rosada, branca e azul-celeste - mais rosas, mais rosas -, como um quadro do pintor, o que pintava o céu de joelhos?

Parece que das sete galarias do Paraíso arremessam rosas para a terra. Como num nevão, pálido e vagamente colorido, as rosas prendem-se na torre, no telhado, nas árvores. Olha: o que é tosco torna-se, com o seu adorno, delicado. Mais rosas, mais rosas…

Parece que soam as Ave-Marias, que esta nossa vida perde a sua força quotidiana, e que outra força interior, mais altiva, mais constante e mais pura, faz que tudo, como em repuxos de graça, suba às estrelas que se acendem já entre as rosas…mais rosas..Teus olhos, que não vês, e que ergues suavemente ao céu, são duas belas rosas.

Que pura, que bela, esta flor do caminho! A seu lado passam todos os tropéis - os touros, as cabras, os potros, os homens -, e ela, tão terna e tão débil, continua de pé, verde e fina, no seu triste valado, sem se contaminar com nenhuma impureza.

Quando, ao começar a encosta, metemos pelo atalho, todos os dias a vês no seu posto verde. Já tem ao seu lado um passarinho, que se levanta - porquê? - quando nos aproximamos, ou está cheia, como uma pequena taça, de água clara de uma nuvem de estio, já consente o roubo de uma abelha ou o volúvel adorno de uma mariposa.

Esta flor viverá poucos dias, meu amor; mas a sua lembrança será eterna. A sua vida será como um dia da tua Primavera da minha vida. Ai ! Quanto eu daria ao Outono em troca desta flor divina, para que ela fosse diariamente o exemplo da nossa vida?

O primeiro canto do grilo no crepúsculo, é vacilante, baixo e áspero. Muda de tom, aprende de si mesmo, e pouco a pouco vai subindo, vai-se pondo no seu sítio, como se fosse procurando a harmonia do lugar e da hora. De súbito, já com as estrelas no céu verde e transparente, ganha o canto uma doçura melodiosa de guizo solto.

As frescas brisas arroxeadas vão e vem; abrem-se completamente as flores nocturnas e vagueia pelo chão uma essência pura e divina, de confusos prados azuis, celestes e terrestre. E o canto do grilo exalta-se, enche todo o campo, é como a voz da sombra. Não vacila já, nem se cala. Como saindo de si próprio, cada nota é gémea da outra, numa irmandade de escuros cristais. As horas passam, serenas. Não há guerra no mundo e o lavrador dorme tranquilo, vendo o céu no fundo alto do seu sonho. Talvez o amor, entre as trepadeiras de um muro, ande extasiado, de olhos nos olhos. Os favais enviam para a aldeia mensagens de terna fragrância, como numa inocente adolescência cândida e subtil. E os trigos ondeiam, verdes de luar, suspirando ao vento das duas, das três, das quatro horas…O canto do grilo, de tanto soar, perdeu-se…

A lua cai, vermelhusca e sonolenta. Já o canto está ébrio de luar, embriagado de estrelas, romântico, misterioso e profuso. É então que grandes nuvens lutuosas, debruadas de um malva azul e triste, arrancam o dia do mar, lentamente…

Aí a tens, meu amor: parece-me que desta vez se enganaram as andorinhas, como na semana passada as galinhas se enganaram recolhendo à capoeira quando o sol das duas se eclipsou. A Primavera teve a galantearia de se levantar este ano mais cedo, mas teve que guardar de novo, tiritando, a sua terna nudez no leito enevoado de Março. Entristece ver murchar, em botão, as rosas virgens do laranjal!

As andorinhas já aqui estão, amor, e mal se ouvem. Mas nos outros anos, no dia da chegada, saudavam e bisbilhotavam tudo, palrando sem tréguas no seu ondulado gorjeio. Contavam às flores o que haviam visto, as suas viagens por além-mar, deitadas na água, com a asa por vela, ou nas enxárcias dos barcos; e outros acasos, outras auroras, outras noites com estrelas…

E o vento…O vento que anda, manso, entre os pinheiros queimados, aproxima-se lentamente…, deita-se na terra fosca e, ao som de uma longa canção de embalar, adormece-te como uma criança.

Deus está no seu palácio de cristal. Quero dizer-te que chove. Chove. E as últimas flores, que o Outono deixou teimosamente presas nos ramos exangues, carregam-se de diamantes. Em cada diamante, um céu, um palácio de cristal, um Deus. Olha esta rosa; tem dentro outra rosa de água, e ao sacudi-la, vês?, cai-lhe a nova flor brilhante, como alma sua, e ela fica murcha e triste, como a minha.

A água deve ser tão alegre como o Sol. Se não, olha como correm felizes, sob ela, as crianças, fortes e coradas, com as pernas nuas. Vê como os pardais entram, num alvoroçado bando súbito, na hera…

Chove. Hoje não vamos para o campo. É dia de contemplações. Olha como correm as goteiras do telhado. Olha como se lavam as flores verdes, como o barquito das crianças, ontem parado entre a erva, voltou a navegar na valeta. Olha agora, neste sol instantâneo e débil, como é belo o arco-íris que sai da igreja e morre, num vago vislumbre, ao teu lado.

Renata Camacho