Hoje celebra-se o Dia Nacional do Mar. Inevitavelmente, as memórias emergem, trazendo consigo imagens, sons, cheiros, nostalgia de tempos de infância. Tempos em que o mar era ponto de encontro de amigos, de descoberta, nas poças que a maré vazia deixava a descoberto, plenas de vida marinha, mas também de aventuras e desventuras, ao ritmo das ondas quando a levadia era mais forte e os mais bravos aproveitavam a “ressaca”, ou então de mergulhos, de frente, de costas, com piruetas ou mesmo de chapa. Só mesmo o tilintar dos dentes, a pele dos dedos sem cor e encarquilhada ou os lábios roxos nos tiravam da água! Mas depois a linha de costa já não era suficiente. O mar era demasiado extenso e intenso, para que ficássemos confinados ao alcance visual dos sempre atentos pais. Podia ter sido qualquer outra coisa. Mas foi quando vi pela primeira vez o meu pai e o meu irmão mais velho a deslizarem em cima da água, movidos apenas pelo vento, que soube que estava ali o instrumento que me levaria a entrar mar adentro. Foi preciso alguma paciência, principalmente de quem tinha que ouvir as minhas súplicas e que lá me levava literalmente pendurado na retranca. Afinal, na altura, não havia equipamento para crianças. Mas lá chegou o dia em que, finalmente, podia ver a Madeira do mar e não o oceano de terra firme. E assim, o que era antes uma fronteira, foi a porta para o mundo, que me levou a conhecer tantos mares, gentes, culturas, outras ilhas e continentes. No fim, usando uma frase batida, percebi que havia viajado a vida inteira, apenas para concluir que não precisava de ter saído uma única vez. Tudo estava ali, condensado numa preciosidade plantada em pleno Mar. A Pérola do Atlântico!
João Rodrigues