O eurodeputado Nuno Teixeira não tinha que ficar ofendido pelo facto de os peritos do Eurostat terem pedido uma lista das sanções potenciais a aplicar à Madeira na sequência da suspeita de ocultação deliberada da dívida pública e também por terem ousado saber em que pé está a silenciosa e duradoura investigação do Ministério Público. Mas o empenhado eurodeputado apressou-se a enviar um bilhetinho à Comissão Europeia invocando a lei da rolha, o sigilo e o código de conduta dos técnicos da estatística europeia, sob pena de a “revelação de dados” poder “causar prejuízo aos interesses da União Europeia, ou aos interesses do Estado-membro”.

Ora, se por ter pedido dados e informações o Eurostat está a “extravasar o seu domínio de competências, assumindo um papel de actor político que ultrapassa o estrito plano técnico e estatístico a que se deve limitar a sua actividade”, o dr. Alberto João Jardim quantos domínios de competências extravasou quando escondeu e não reportou as contas públicas ao Instituto Nacional de Estatística e ao Banco de Portugal? E quantos papéis de actores desempenhou o presidente do Governo Regional sem olhar aos limites da despesa, às obrigações enquanto político e governante, e ao respeito pelos madeirenses e pelas instituições quando abriu o buraco da Madeira e descoseu os bolsos dos contribuintes?

Por alguma razão nos encontramos condenados a pagar a batota financeira sem que os verdadeiros arquitectos do buraco da Madeira, cuja dimensão real se desconhece, tenham sido chamados à responsabilidade. O que temos é um Eurostat a fazer de eurodeputado de um arquipélago ultraperiférico de cidadãos ultraperiféricos transformados em satélites conformados e obedientes na órbita dos acomodados e coniventes da vida política. De contribuintes sem cultura de exigência, sem sede de conhecimento. Sem espírito reivindicativo, nem discernimento para distinguir propaganda de informação. Com horror de questionar a acção executiva, resquícios das feridas de um fascismo bem vincado e que amputou, até um passado recente, a livre participação cívica na vida política.

Mas lá vieram os desconfiados dos peritos do Eurostat meter a colher no buraco bem guardadinho, durante as visitas a Lisboa. Custa-lhes perceber como pode uma gestão danosa do erário com esta magnitude ser resolvida assim: com uma massiva pulverização fiscal assinada pelos autores desta saga administrativa que já não administra rigorosamente nada mas, simultâneamente, continuam a ocupar as mesmas funções e os mesmos cargos imunes a uma Justiça manietada por forças tão ocultas quanto as da dívida. Quando lerem a cartinha de Nuno Teixeira, vão começar a compreender melhor tudo isso e também porque está um eurodeputado mais preocupado, em Bruxelas, a proteger a imunidade do chefe do que em defender os interesses do patrão: o povo que o elegeu.