A identidade é sempre especial, coisa única que merece toda a atenção e consideração, pois sem a mesma perde-se a essência, a referência e mesmo a dignidade. Tudo se distingue por aquilo que o diferencia, encontrando-se na autenticidade um factor determinante. É por isso que uma cópia não passa disso mesmo e que uma imitação apesar de ter a sua identidade, é necessariamente diferente e ausente da razão original. Como tudo, a Madeira tem a sua notoriedade e que muito contribui para o seu posicionamento que mais não é do que a forma como as pessoas a consideram. Para a formação deste conceito que pode ser resumido da forma mais conhecida e agradável com que a Madeira é, repetidamente, referenciada - “A Pérola do Atlântico”, contribuem múltiplos factores, entre os quais as “coisas” que são autenticamente “só” nossas, entre outras: o carro de bois, o carro de cestos, o bolo de mel, a dose de lapas, a carne vinha d’alhos, a poncha, as missas do parto, a espetada em pau de louro, ... e o Bolo do caco. Perante este enquadramento que significado terá aquilo que se está a passar, exatamente, com o referido Bolo do caco? Recentemente, um “empreendedor” português que fez questão de afirmar que nem conhecia a Madeira mas que é o empresário que mais fabrica Bolos do caco e que os coloca, indiferenciadamente, como oferta de pão, em muitos restaurantes de Lisboa. Apesar das quantidades alucinantes e que deixam para trás qualquer expressão da produção regional, verifica-se que associação à Madeira é inexistente, fazendo daqueles produtos, apenas, uma façanha do seu industrial. A referência ao “Bolo do caco” surge, ainda mais recentemente, associada ao fast-food, procurando impor uma versatilidade forçada mesmo que isso represente um posicionamento não original mas possível por força da massificação da comunicação utilizada. Neste caso em particular, apesar de tudo, o nosso Bolo do caco teve mais sorte, uma vez que viu a sua imitação resultar tão diferente de si e associada a um menu cujo nome em nada identifica a Madeira. Neste caso, a nacionalidade protegeu, e ainda bem, por aquela via, o nosso Bolo do caco daquele tal produto, no entanto, não deixa de o envolver pelo uso da sua denominação original. Nada protege as marcas que não estão registadas mas o não cumprimento dessa importante formalidade não impede que se sinta e manifeste violentada a identidade da Madeira, por via da banalização e da má utilização, a qualquer preço, daqueles que são os nossos verdadeiros ativos.

Eduardo Jesus