Maria Aurora * A Maria começou a sua viagem: foi-me apresentada há dias e é, ainda uma mancha pequenina a dançar no liquido amniótico, aconchegada e vibrante.
Está com três meses, três meses de ventre materno, embrulhada num lençol de água, as pernitas a desenharem saltos e as mãos a ensaiarem asas. E, neste milagre, que é a ecografia encontra-se esta avó perante a primeira foto de mais uma neta.
Então, e porque não terei tempo (ou todo o tempo que quereria) para vê-la crescer decidi enviar-lhe uma carta. Que é afinal, para todos os abençoados pela dádiva da vida, os que habitando no segredo da arca materna embalados pelo amor procuram a explosão da conquista e o calor dos afetos.
Minha flor, queria dizer-te que estamos todos à tua espera. Vi-te há pouco frágil e pequenina no teu bailado entre tules e águas, irrequieta e precária. A precaridade de um ser em formação que gradualmente se vai transformando e conquistando espaços. Vi-te e enterneci-me e desejei tocar-te, aí dentro para dizer-te que estou aqui com o coração, a cabeça, as mãos, eu toda à espera da tua chegada. E citar-te ao ouvido a força da beleza das coisas eternas, o prazer da dádiva e da humanidade, o deleite da entrega e da recusa: enfim os desígnios da vida que vale a pena viver.
Estou aqui para abençoar o teu destino de mulher, seja qual for. E podes querer que em todos os momentos, lá ou cá, um infinito de amor se encostará ao teu peito numa presença prenhe de ternura e esperança. Bate-me à porta. Deixá-la-ei sempre aberta à tua espera.
* Se fosse viva a minha mãe (Maria Aurora) completaria hoje 75 anos. A neta Maria Luís completa 14. Em jeito de prenda gostaria de lhe entregar esta carta escrita pela avó, através destas “Cartas de Leitores”. Com todo o meu amor para as duas, Chinha