O arquipélago da Madeira é uma região inserida num país lindo, mediano e sem boas elites, bem como numa União Europeia bloqueada por falta de racionalidade política integrada, de solidariedade e de rigor a todo o tempo. Geograficamente, a Madeira é, infelizmente, uma zona ultraperiférica. Economicamente, é uma região com poucas potencialidades, como todos os pequenos arquipélagos. Politicamente, tem alguma autonomia legislativa, financeira e administrativa. Está hoje numa encruzilhada, como o resto do país e toda a U.E.
Ora, no campo político (no seu sentido filosófico), como tudo na vida, há sempre algo que muda e sempre algo que permanece. Cabe saber concretizar e descobrir essa distinção: aquilo que por natureza (humana) muda e aquilo que por natureza não muda.
As mudanças devem ser, logicamente, para melhor. Mas, antes disso, o ser humano intui as mudanças como um primeiro passo para a mera possibilidade de se melhorar. O que quer dizer que o ser humano, pelo menos quando não manda, faz anteceder a melhoria (eventual) desejada de uma qualquer alteração do status quo. Sempre foi assim, para o bem e para o mal, como a História nos mostra há séculos.
No caso nacional ou no regional, zonas de dimensão económica média e pequena, as alterações e os progressos dependem muito dos governos, o que é normal. Não gosto de dizer “Estado”, pois este tem costas abstractas demasiado largas e desculpabilizantes a favor dos incompetentes que servem o Estado ou dos incompetentes que se servem do Estado.
Os governos, hoje dominados por alguns partidos com alguns dirigentes sem independências, caem na ilusão ou aceitam que os poderes não democráticos de facto (grandes empresários e grandes grupos financeiros) não decidem a “coisa pública” nos EUA e na U.E. Infelizmente, decidem. O resultado está à vista! E é este status quo que só as classes médias conseguem alterar.
Filosófica e historicamente, lendo o genial Aristóteles, J. Keynes, G. Radbruch, J. Rawls, P. Krugman, J. Stiglitz, Robert Alexy e Amartya Sen, é notório que é muito mais fácil, seguro e pacífico que a mudança e a melhoria das nações sejam lideradas por pessoas oriundas das classes médias instruídas. Sempre foi assim. Logicamente, diria.
Por isso, o que se vive hoje em Portugal é paradoxal: quer-se mudar e melhorar a democracia e a sociedade, enfraquecendo as classes médias instruídas. Como nenhuma acção política é involuntária, este paradoxo é conhecido dos líderes. Falta apenas saber ou nomear quem eles são. Mas a intenção é notória e tem uma racionalidade própria, já antes ocorrida noutros séculos.
Neste contexto, só se pode concluir, também hoje, que as populações, sobretudo os grupos sociais que fazem a sociedade humana mexer, mais cedo ou mais tarde causam mudanças sociais e políticas na esperança de que isso, como que por automaticidade, traga melhorias ao todo social. O segredo político da sorte dessas populações, portanto, parece estar em originarem lideranças sérias que associem, sem medos e com sabedoria própria, as “meras” alterações do status quo às melhorias necessárias ao bem comum.
Paulo Pereira Gouveia