Nelo Vingada era, até há pouco tempo, o treinador com mais jogos no Marítimo. Contudo, o seu 121º jogo à frente da equipa maritimista (empate a zero com o Santa Clara nos Barreiros, a 2 de Março de 2003) determinou a sua saída do clube, depois de uma forte contestação da massa adepta verde-rubra, quatro anos e meio depois de ter rendido Augusto Inácio, nos primórdios da presidência de Carlos Pereira.
Neste último domingo, Pedro Martins superou Nelo Vingada em número de jogos como treinador principal do Marítimo. Mas, o seu 122º jogo a dirigir a equipa verde-rubra em todas as competições oficiais, foi aziago, já que se saldou com uma derrota, a quarta consecutiva na Liga, que também Nelo Vingada conhecera na temporada de 2001/02, curiosamente no ano em que levou o Marítimo, pela segunda vez na história da colectividade, ao Jamor.
Há assim pontos comuns entre os dois treinadores. Mas, para já, Pedro Martins sobreviveu ao 122º jogo e continua a merecer a confiança da SAD maritimista, depois de uma espécie de voto de confiança (merecido), mas eivado de muitos recados (uma espécie de cartão amarelo), dados pelo presidente.
Pedro Martins tem obra feita e já marcou história no Marítimo. A conquista da Europa, alicerçada numa época brilhante, e a entrada histórica na fase de grupos da Liga Europa, falam por si. Em tempo de crise e de desinvestimento do clube, Pedro Martins aceitou o repto de ficar mais um ano no Marítimo. Sempre com os mesmos objectivos, ambiciosos e determinados. Com os riscos daí inerentes.
Antes de equacionar os seus métodos e a sua filosofia de jogo – é natural que ao fim de quatro temporadas surja uma saturação no trabalho e dificuldades na transmissão da mensagem – é bom recordar que Pedro Martins tem vindo a perder jogadores nucleares, desde Marcelo Boeck, Kléber, Djalma, Baba, Roberto Sousa, Benachour, Peçanha, Salin, Roberge, Rafael Miranda e Suk, e a sua principal fonte de recrutamento tem sido a equipa B, autêntica fábrica de jogadores para a equipa A. Mas o filão às tantas esgota-se.
Esta temporada decididamente a equipa ficou órfã de Rafael Miranda, um ‘box to box’ que disfarçava muita coisa, e Roberge, que comandava toda a defesa. E, se Derley é uma boa surpresa e Danilo Pereira acredita-se que será uma mais valia, os outros que chegaram tardam a aparecer. E, sobretudo, jogadores que Pedro Martins lançou e o ajudaram na feitura da tal época de sonho, hoje como ontem (época passada), travestiram-se em jogadores banais.
A vida não está fácil para Pedro Martins, como não está para o Marítimo e para os seus adeptos. E, como o próprio afirmou recentemente, é nas horas difíceis que se analisa o carácter dos homens. E, se perceber que, com aqueles que tem, há que mudar estratégia de jogo e, fundamentalmente, trazer a alma que decididamente a equipa perdeu, ainda vai a tempo de perseguir o desiderato que moldou.
E, citando Albert Einstein, loucura é repetir as mesmas coisas pensando que vão dar resultados diferentes.
Emanuel Rosa