Mudam-se os tempos, mas pelos vistos não os apetites. Nas últimas quase duas décadas, aquela que era uma expressão apenas usada em termos, vá lá, culinários, passou a ser utilizada de forma, digamos, mais criativa. O ‘tacho’, como ainda explica a Wikipedia, pode ser um grande prato ou ‘alguidar’ cerâmico ou metálico, ou uma panela cujo diâmetro é maior do que a altura, mas também é uma expressão que passou a ser utilizada para definir um emprego (bem diferente de trabalho) que alguém conseguiu, não pelo mérito, mas por cunha (política e/ou familiar).

Quem não se recorda da célebre frase do socialista António Guterres, proferida em 1995, “No jobs for the boys”? Nos tempos mais recentes, a ‘ideia’ foi actualizada pelo actual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, que mostrou algo que muitos já têm como uma certeza: o senhor é mesmo um estilista da língua. Ora, em entrevista a Judite de Sousa, em Fevereiro, disse que “o PSD não está cheio de vontade de ir ao pote”. Sim, ele disse “pote”.

Embora não conheça em pormenor a realidade em Portugal continental, mas crendo nas notícias que têm vindo a ser publicadas, chega-se à conclusão que nem a ‘troika’ conseguiu travar a corrida ao ‘tacho’, ou melhor, ao “pote” ou outro substantivo que queiram chamar. Por exemplo, em Agosto de 2011, e das 447 nomeações feitas até então pelo Governo de Passos Coelho, no mês e meio que levava em funções, 73 eram ‘boys’, noticiou à época o Diário de Notícias de Lisboa.

Por cá, que é o que nos diz respeito, há um fenómeno curioso que deriva das recentes eleições Autárquicas. Quando o normal seria a renovação dos órgãos autárquicos, logo, também dos chefes de gabinete, assessores, etc., ou seja, dos cargos de confiança, algo que também é passível de ser escrutinado publicamente, assiste-se com surpresa, repito, com surpresa, umas vezes descaradamente, outras vezes pela calada, a pessoas - nomeadamente do PSD - a ‘sairem de cena’, gente que ‘jurou’ dedicação às autarquias e às populações, mas que agora não lhes ‘apetece’ estar a tempo inteiro na oposição.

O resultado é que alguns destes eleitos pelo povo (sim, porque houve muita gente a votar nos candidatos do PSD mesmo nos sete concelhos em que os sociais-democratas) declinam, depois da derrota, assumir os cargos de corpo e alma, e procuram ‘poiso’ mais certo noutro lado, uns no sector privado, mas a maioria quase sempre no sector público. E rapidamente arranjam-lhes um cargo. O que dirá quem desespera no actual mercado de trabalho na Região? Adiante. É legal? É. Cumprem os requisitos? Cumprem. Mas numa altura em que o povo está a ser esfrangalhado pelo Governo da Madeira, com a ajuda do Governo da República, em que não há emprego e as famílias passam fome, não serão imorais estas movimentações de gente de um lado para o outro, onerando os cofres públicos? Fiquem à vontade, não precisam de responder.

Ora, muito mal estamos na Madeira quando os eleitos passam a 'mensagem' a quem os elegeu que só estão disponíveis para o trabalho autárquico a tempo inteiro quando são poder, quando ganham. É por estas e por outras que muitos madeirenses têm cada vez mais desconfiança na Democracia. Depois os políticos queixam-se da abstenção.

Confesso que esperava uma outra atitude responsável de pessoas que, pessoalmente, tinha respeito. Mas, por outro lado, nunca estive filiado num partido, nem nunca esperei nada da política, antes optei pelo estudo, pela formação e pela vida laboral como jornalista, e talvez por isso, estas coisas da política escapam-se-me. Deve haver algo nisto tudo que não compreendo, mas que não me impede de questionar: afinal, o que se passa? Só ficaria mais feliz, e seguramente milhares de outros contribuintes, se não fossemos quase todos sempre obrigados a ter de puxar da esfarrapada carteira e pagar. Pagar. Pagar. Sem reclamar. Até ao dia.