Natacha Silva Numa altura em que tanto se fala da necessidade de triagem no ensino e da obrigação de excelência do magistério, apaga-se uma vida vivida em função dos outros, dos seus alunos, que tocou várias gerações, e ultrapassou com naturalidade os limites da informação, contribuindo de forma marcante para a formação de tantos madeirenses.

Não é um elogio póstumo o que aqui se pretende, nem tão pouco uma tentativa de redenção por falta de ter transmitido, na altura devida, a importância da sua presença. É sim, um esforço para não deixar passar uma oportunidade de relembrar algumas singularidades de alguém que nunca será esquecido.

Os meus tempos do colégio vêem-me à memória sobretudo em tons de cinza, marcados pela rigidez de uma educação primorosa e por vezes severa nas suas restrições e princípios. Contudo, há uma nota dissonante nessa harmonia monocromática – a D. Fernanda Afonso, impecavelmente vestida nos seus fatos de saia e casaco de cores primaveris. Mas quem a conheceu sabe que era a sua personalidade que irradiava mais cor. Para além das verdades científicas que transmitia às suas meninas, brindava-nos com histórias engraçadas e maliciosas dos seus tempos de juventude no Porto Moniz. Esses episódios tinham um especial significado para mim, neta de uma sua amiga e companheira de tropelias, porque permitiram-me descobrir mais um pouco das minhas raízes e das razões que fizeram um filho de um inglês da Jamaica se perder de amores por uma rapariga de lá. É fácil de perceber que nós, miúdas de colégio, nos deliciávamos com as descrições que fazia de como tinham tentado saber tudo sobre um padre novo que tinha ido para o Porto Moniz, ou de como faltavam às aulas para ir nadar, à revelia dos pais.

Estas e tantas outras “aventuras” nos contava a D. Fernanda, entre assuntos mais sérios sobre o sistema circulatório, ou reprodutor. E passados vários anos, já reformada, nunca deixava passar uma oportunidade de saber como estava o coração das suas alunas, com uma cara grave mas com um imenso sorriso no olhar ou de demonstrar o orgulho que sentia ao conhecer os sucessos académicos das suas educandas.

São estas as lembranças, e tantas outras, que vou guardar. Acredito que ninguém morre realmente desde que não seja esquecido, e a D. Fernanda será, com certeza, recordada por muitos dos seus alunos. Quero acreditar também, e de acordo com os preceitos científicos, fazendo cada um dos nossos átomos parte deste universo, que quando olhar o céu, numa noite sem nuvens, lá encontrarei mais uma estrela.