Se as Seleções (Reader´s Digest) publicassem um artigo sobre as ultimas eleições autárquicas regionais, certamente que essa prosa começaria mais ou menos assim: “Aquele domingo de fim de Setembro calmo e tranquilo, amanhecera cinzento e chuvoso. Alguns mais atentos, tinham lido nas estrelas que o mau tempo podia mudar, mas nada fazia prever a tragedia que se iria abater sobre o PSD-M!”

Bem mais do que uma pesada derrota do partido que há quase 40 anos geria os destinos da região, estas eleições ficarão inscritas na historia recente da Madeira, como o fim de um ciclo politico. E quando a derrota é marcada por tão pesada indignação, há sempre o risco de guardarmos desse ciclo a memoria dos tempos sombrios, erros acumulados, discursos ridículos, ameaças patéticas, e a imagem degradada de um poder em decomposição. É seguramente injusto, porque este ciclo que agora findou, teve também os seus momentos de brilho e gloria.

Mas a Historia é severa e castiga sempre quem não entende os sinais do tempo e insiste em ficar em cena quando os espetadores já abandonam a sala.

Se o numero de camaras perdidas pelo poder fala por si e nada mais há a dizer, fica então o olhar certamente diferente com que cada um de nós vê este “fenómeno”.

Pairava no ar que alguma coisa podia finalmente mudar! Ficava a dúvida se as conversas tão inflamadas contra o poder regional que se ouviam nas mesas dos cafés, nos táxis, nas esquinas da cidade, iriam chegar às urnas. E chegaram!

Se é fácil desenhar o rosto da derrota, a vitoria teve vários protagonistas e cada um com os seus méritos.

Mas há duas personalidades que emergem destas eleições com novas responsabilidades. Paulo Cafofo e Miguel Albuquerque.

Paulo Cafofo foi a arma secreta que a oposição tirou da cartola! Vindo dum espaço de pura cidadania , o ”Obama da Madeira” como alguém já o chamou, gerou uma empatia fácil. Discurso feito de ideias simples mas arrumadas, este cidadão igual a todos nós, fala normalmente e sem tiques politiqueiros. Ser genuíno e limpo de compromissos, faz seguramente a diferença nos dias que correm. Os partidos que se cuidem!

Tem agora o desafio de gerir com competência esta cidade tão bonita. A sua simpatia natural será sempre uma mais valia, mas não basta. Num contexto difícil de grandes restrições, tem que se manter próximo das “pessoas”, atento às espectativas de quem nos visita e encontrar o equilíbrio eficaz numa coligação com diversas sensibilidades.

Miguel Albuquerque é a outra personalidade que merece um olhar atento . Este resultado catastrófico do PSD-M, veio confirmar que ele tinha razão quando em Novembro disse a quem o quis ouvir, que era urgente uma nova liderança, uma gestão mais competente e uma maneira diferente de estar e fazer politica. Apesar de quase metade dos companheiros concordarem, tudo acabou por ficar na mesma.

E as consequências aí estão! Com 2015 no horizonte, o PSD-M tem que recuperar rapidamente desta derrota humilhante. Parece-me que manter a atual situação, é alimentar um bom caldo de cultura para mais divisões internas. Nada mudar, é meter a cabeça na areia e ignorar uma trajetória descendente por demais evidente. Não escolher um novo líder, é reduzir perigosamente o tempo de afirmação de uma nova liderança que até 2015 precisa de consolidar a sua imagem, motivar os companheiros e apresentar uma proposta governativa credível.

Convém não esquecer que a oposição entretanto vai crescer e conquistar simpatizantes e novos espaços.

Se a mudança dentro do partido for tardia, dificilmente o PSD-M surgirá em 2015 com a vitalidade necessária para disputar umas eleições com a ambição que o seu património histórico justifica.

Manuel de Brito