Atordoado com o garrote que o governo da República nos vai aplicar com mais este pacote brutal de sacrifícios imposto no Orçamento do Estado para o próximo ano, olho para a Madeira e observo uma mudança política drástica. Diria, uma mudança cívica assinalável.
Uns dizem que a maioria dos madeirenses “perdeu o medo”, outros que finalmente surgiram alternativas credíveis de poder e que se atingiu a maturidade democrática, após décadas de intoxicação propagandística do partido dominante.
Para além desses fatores um outro foi determinante para a mudança em sete das onze autarquias da Região: a falta de dinheiro, provocada pelo desvario financeiro em que o governo regional mergulhou a Madeira, materializada numa dívida oculta inexplicável. Diz sabiamente o povo que “sem dinheiro, não há festa”. A repercussão dessa máxima aconteceu nas autárquicas de 29 de setembro.
Perante a mais grave crise financeira que varre a sociedade de uma ponta a outra, nada havia a perder em apostar noutras caras e noutros projetos.
O cartão vermelho foi exibido pelo eleitor ao PSD/M, partido maioritário e senhor absoluto de toda a ilha, desde que existem eleições livres. A viragem histórica que se verificou no Funchal, Santana (grande surpresa), Santa Cruz, Machico, Porto Santo, Porto Moniz e São Vicente é a prova de que nada será como dantes a partir de agora na Pérola do Atlântico. O povo, que é efetivamente quem mais ordena, optou pela mudança, com arrojo. Mais importante: exige, agora, um novo registo e uma nova postura democrática, tendo corrido pela porta pequena com o grupinho que já não se identifica, fundido numa maioria que aniquilou a sua própria identidade em demasiados anos de poder, que gerou e alimentou vícios, cumplicidades e as dependências de todos conhecidos.
Tudo será diferente a partir de agora na Madeira e nem as habituais ameaças de bloqueio às autarquias nas mãos da oposição conseguirão vingar.
Primeiro porque não há dinheiro. Segundo, porque bloquear sete autarquias é paralisar mais de metade da ilha, com a capital incluída e os seus 100 mil habitantes.
Nesta altura do campeonato não adianta discorrer muito sobre as causas que levaram à hecatombe do partido penalizado pelos eleitores. Ele está a fazer o seu trajeto rumo à autodestruição. A guerra de barões está a escaqueirar o depauperado “partido da seta para cima”. A imagem do líder parlamentar Jaime Ramos a esgueirar-se, elevador adentro, na Assembleia Legislativa, ao ruidoso protesto perpetrado por uma cidadã que gritava na galeria do Parlamento pelo pagamento de uma eventual dívida, foi paradigmática...
O caminho faz-se caminhando.
Os eleitores mostraram que não há homens providenciais nem motivos para gratidões políticas espúrias. O povo acordou de uma longa hibernação e inaugurou um novo ciclo, que lhe propicie uma democracia plena e asseada.
Cabe agora aos novos protagonistas da política regional mostrarem o que valem, não embarcarem em facilitismos nem em demagogias. Convém não esquecer: não há almoços grátis. A população vai exigir o retorno da confiança depositada e o cumprimento das promessas feitas.
Roberto Ferreira