Somos governados há perto de 40 anos com o povo a garantir vitória após vitória ao PSD, que só foi derrotado nas últimas eleições. Tudo isso aconteceu independentemente de ideologias, ou da forma como os governantes trataram as pessoas. A questão é bem mais simples, é apenas uma questão de manjedoura. Havia palha na manjedoura e por isso as pessoas andavam contentes e iam garantindo as sucessivas vitórias, fazendo “orelhas moucas e vista grossa” a tudo o que se passava à sua volta, não querendo saber de nada, e até criticando os opositores da situação. Fatia ou migalha para todos havia quinhão. Esta situação só terminou quando deixou de haver palha no gamelão. Aí qualquer saco de vento ambicioso (não incluo nesta designação os heróis que ano após ano se bateram contra o poder dominante), serviu para os eleitores manifestarem o seu protesto (exclusivamente) contra a falta de “palha”.

É curioso verificar que hoje muito poucas pessoas se assumem francamente como sendo do PPD, mesmo os mais ferrenhos, mais enfarinhados, afirmam agora que bem disseram…, que avisaram…, que não estavam de acordo, que a culpa é exclusivamente do Alberto João. Esta tomada de posição que se vem generalizando representa a mais absoluta mentira e branqueamento das razões que nos trouxeram à situação atual. Todos temos as mãos sujas em maior ou menor grau, mesmo que não tenhamos roubado, mesmo que não nos tenhamos aproveitado do compadrio clientelar, vimos, ouvimos e vemos mas calamos, por proveito, medo, cobardia, ou por pura e simplesmente nos “estarmos nas tintas”. Foi mais fácil deixar correr, não denunciar o que se passou debaixo do nosso nariz.

Acontece que os tempos são de penúria e os novos eleitos também não têm palha para colocar na manjedoura. Mais tarde ou mais cedo haverá protestos e vinganças eleitorais contra os novos eleitos, promovidos ou acicatados pelos que perderam as eleições, que gastaram até ao último cêntimo, deixando as câmaras na penúria para que os recém-eleitos nada possam fazer. Com a política nacional de austeridade sobre austeridade, com a economia mais deprimida de ano para ano, a situação regional só poderá piorar, a falta de palha agravar-se-á, e, está bom de ver, os recém-eleitos é que “pagarão as favas”. Nas próximas eleições autárquicas os atuais derrotados, devidamente recauchutados, reciclados, de cara lavada, expurgados os trastes, surgirão como salvadores da pátria. Penso que o PPD deveria governar ainda durante mais algum tempo, bebendo o cálice de fel até à última gota.

Está para discussão na AR o orçamento de estado. O governo e seus satélites têm vindo, duma forma soez mas persistente, a preparar o terreno, pressionando quer o tribunal de contas, quer os espíritos das pessoas para os cortes bárbaros que se avizinham. Sem querer discutir a justeza do aumento das horas de trabalho na f. pública de 35 para 40h semanais, este aumento de horas funciona na prática como se os funcionários sofressem um corte real de 14% dos seus ordenados (o que cobardemente não é assumido como tal pelo governo), e que, somados aos cortes salariais de 12,5% anunciados para 2014, o que, somado ainda a um acréscimo de 0,5% para a ADSE, faz com que os funcionários públicos, num período de apenas 4 meses, sejam prejudicados em 27%, com indicações expressas de que os cortes são para ficar.

Como o governo vai continuar com a “austeridade”, o “reajustamento” e a “restruturação do país”, o déficit para 2014 não será cumprido, o governo fará, para 2015, novos cortes nos salários e nas pensões de reforma e assim por diante. Como se tudo isto não bastasse, a forma como a informação é comunicada ao povo choca pela absoluta falta de empatia. Pode, mesmo dizer-se que roça a sociopatia o modo como as penalizações recaem sistematicamente sobre os mesmos que se não podem defender, pois trabalham para o Estado.

Não passou pela cabeça de Passos Coelho, para moralizar o sistema e dar o exemplo, cortar o seu ordenado, dos seus ministros, secretários e assessores. Não são funcionários públicos, mas fazem em absoluto, parte das mesmas despesas do Estado, em nome das quais cortam o ordenados e pensões aos outros.

Já não defendo que a forma como somos governados tenha apenas a ver com a ideologia fascizante deste governo, atualmente considero que aliadas a esta matriz existem grande doses de pura e simples estupidez e imbecilidade. Veja-se o atual caso do Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Helder Melim