"Criatividade dinheiro amor" é a expressão abreviada que sintetiza o espírito de uma publicação inglesa com o mesmo nome, editada por Shelagh Wright, John Kieffer, John Holden e John Newbigin. Ainda não li os mais de sessenta ensaios que compõem a publicação, da autoria de políticos, educadores e artistas, mas o título é provocatório suficiente para pensar no papel da educação e nas competências necessárias para as indústrias culturais e criativas, em particular numa época em que as indústrias criativas são promovidas como salvadoras da economia. A criatividade não se esgota nas indústrias criativas, muito menos nas atividades artísticas. "Indústrias culturais" no sentido de reconhecer importância e pagar por algo que comunica valor cultural através do teatro, da música, da dança ou das artes visuais não é uma novidade. O que faz toda a diferença são as tecnologias, a globalização dos mercados e os novos canais de produção e distribuição artística, encurtando distâncias entre público e criadores. A base da economia criativa é essa; de um lado, pessoas com talento e imaginação e, de outro, pessoas ou entidades dispostas a pagar para usufruir desses bens. Como tal, a criatividade é, acima de tudo, uma faculdade humana que pode ou não ser motivada e ativada conforme haja ou não condições favoráveis à sua manifestação. A criatividade não surge por decreto nem ajuste direto. Exige massa crítica, debate, informação, condições de produção e excelentes escolas de formação artística, científica e tecnológica, base importante para o recrutamento de criadores. As indústrias criativas fazem toda a diferença numa sociedade moderna, informada e dinâmica mas, ao ler alguns discursos sobre as indústrias criativas, fico a pensar se os novos tempos serão de reconhecimento da criatividade de músicos, compositores, atores, encenadores, realizadores, escritores e criadores em geral ou se é uma mera ideia de lucro, na qual o público é o consumidor anónimo e os artistas são os novos proletários do século XXI.

Natércia Xavier, Formadora