O decreto das estradas, esse mesmo que muitos comentaram sem ler ou só analisaram depois da polémica, esconde propósitos abomináveis e mostra o pior da política. Na prática, Jardim passou a fazer com os seus aquilo que sempre fez contra os adversários. Pior, levou a que os seus trunfos, como a ameaça e a chantagem, fizessem escola e afectassem a lucidez e a seriedade colectivas.

Não há memória que em 2005 a reclassificação das vias públicas, pagas pelos contribuintes, tivesse dado brado. Ainda havia dinheiro a rodos, inaugurar a todos servia e o poder tudo calava. Mas quis a lei que limita alguns mandatos e prolonga outros que a nova classificação motivasse amuos e exigências, ameaças e vinganças, com o povo a ver muitas vezes sem questionar o absurdo de alguns posicionamentos e outras meias verdades, já que o decreto não abrange algumas estradas noticiadas, nem se limita apenas ao concelho do Funchal como alguns bem tentaram impingir. E enquanto isso, passa em claro o facto hilariante das vias de comunicação construídas após a entrada em vigor do diploma serem “da responsabilidade da entidade promotora da obra, sem prejuízo da sua transferência formal para uma entidade distinta”, como ninguém questiona uma outra via escondida, a da durabilidade do decreto. É ou não verdade que será declarado nulo após as próximas ‘autárquicas’, por exemplo, se Bruno Pereira ganhar no Funchal? Não é assim que está combinado, como prova a reacção mal documentada do ainda candidato, agora funcionário do executivo, concertada com a Quinta Vigia?

Alguma política distraída – o diploma foi aprovado no Parlamento com o consentimento da oposição ausente! - e a pseudo cidadania crítica mostra incómodo perante umas estradas que mudam virtualmente de mãos, mas não se revoltou com os 'trabalhos a mais' que as encareceram brutalmente, com as engenharias suspeitas da malta do betão e alcatrão e com as expropriações selvagens a preços ridículos, muitas delas ainda por pagar e que, nuns casos, apenas viabilizaram caminhos que servem clientelas e, noutros, de nada serviram.

Esta é a mesma gente que não questiona severamente os poderes de toda a Região, por sinal, os mesmos de sempre e todos do mesmo partido, sobre as estradas que não constam do decreto. Afinal, de quem são as vias onde uns técnicos são chamados a colocar placas que desresponsabilizam quem as tutela pelos danos que venham a causar em automobilistas e peões? De quem são os agora caminhos proibidos, autênticos patrimónios da humanidade, que o desleixo tornou intransitáveis? De quem são os becos e veredas onde se multiplicam ervas daninhas, derrames de água e que dão acesso a construções clandestinas? De quem são as ruas que mais parecem poios, responsáveis por avultados prejuízos nos carros e nas carteiras? A quem compete gerir estradas onde é permitido o estacionamento abusivo, a lavagem de automóveis, o depósito de lixo e até bailes dominicais? Quem tutela as que não levam a lado nenhum, as que fecharam depois de inauguradas e as que se revelaram um logro, como é exemplo a Rua Nova do Matadouro, inoperacional desde Junho de 2008 e que, na última vez que foi notícia neste jornal, em Janeiro de 2009, já lá vão três anos, estava à espera de estudos? De quem são as vias das contestadas parcerias que nos levaram milhões de euros? E a quem compete fiscalizar tamanho manancial, ordenar o trânsito e tapar buracos?

Se as estradas são nossas, como diz o desgoverno, convém que delas tomemos conta, antes que sejam motivo para mais um sem número de ajustes de contas políticos. O delírio instalado é perigoso.