Pode parecer azar, mas, se calhar, é apenas esse mecanismo de probabilidades que obedece a uma lógica própria e nem sempre justa. Só assim se explica que ao mau momento que estamos a viver corresponda também uma classe política má ou esgotada.
Um Presidente da República que não actua, mas que gosta de fazer discursos vazios e escrever mensagens no Facebook, um Governo que chamou a si a maior onda de violência contra o povo que o elegeu e, por cá, um presidente do Governo que se diverte com questões domésticas e que não é capaz de sair de um registo esgotado de perpotência, sustentado em betão e na ignorância total de que o povo, mais por necessidade do que por clarividência, já não embarca na megalomania desnecessária.
Numa altura em que precisavamos de ser surpreendidos com medidas concretas e movimentos consequentes, a classe política emigrou para dentro do seu mais absurdo exercício de poder, elevando à máxima potência a surpreendente capacidade de nos surpreender pela negativa
A nossa surpresa está refém dessa pequena política que nos atingiu de forma brutal.
Na última semana, somam-se os exemplos da menoridade que nos assalta os dias, vinda de quem era suposto exercer uma responsabilidade maior.
Um Governo Regional que rouba estradas por decreto, sem ouvir quem de direito e deixando claro que a democracia continua a ser palavra vã. São as decisões políticas como castigo, às quais correspondem também outras decisões que louvam a subserviência cega. Tivemos um pouco de tudo isto esta semana.
Ao nível nacional, as coisas não andam melhores. Vem aí um ano difícil à conta de um Governo que se prepara para continuar a exercer uma onda de violência sem paralelo em nome de um projecto político de eficácia duvidosa e de provas inexistentes.
E mesmo que isto já não nos surpreenda, surpreende a lata com que encaram toda esta desgraça, com uma naturalidade vergonhosa e alicerçada em conselhos de quem se julga realmente uma espécie de missionário dos novos tempos, onde a pobreza honrada e orgulhosa parece querer voltar a fazer história.
Menos de uma semana depois de o secretário de Estado da Saúde ter dito que os portugueses têm a obrigação de prevenir as doenças, garantindo assim a «sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde", veio agora o Governo fazer uma série de recomendações para que os portugueses possam enfrentar o novo ano com uma alimentação económica e simples. Citando as palavras de Pedro Graça, director do programa de Alimentação Saudável da DGS, "um só copo de leite, que é muito barato, dá mais de 25% daquilo que precisamos por dia de cálcio, vitamina D, fósforo".
Como se vê, lata é algo que sobra a esta gente, mas paciência é também algo que nos vai faltando a todos nós. Eu, pelo menos, dispenso as orientações, os falsos conselhos paternalistas, as decisões governamentais ridículas e caricatas. Recuso esta espiral de disparate perigoso, onde todos os dias somos confrontados com o pior que a política é capaz de produzir, mas, mais grave do que isso, somos confrontados com práticas que parecem querer instaurar uma democracia menor e uma certa apatia mansa e pacata. Um povo obediente, honrado e, se possível, agradecido aos que tão generosamente cuidam de nós, desde que estejamos dispostos a ocupar o nosso lugar na pirâmide desigual que se esforçam por erguer.