Que o país está de tanga, já todos sabemos. Que a Madeira já nem a tanga tem, também já todos constatámos. Que vivemos num país onde nenhum político é responsabilizado pelos erros gravíssimos que comete a gerir a coisa pública, também já intuímos. O ano de 2012 não deixa saudades para os portugueses em geral e para os madeirenses, em particular. Na Região a fome aumentou. É um facto penosamente visível. Outro facto indesmentível: a classe média e os remediados passam por grandes dificuldades e por uma diminuição da sua qualidade de vida. Na outrora e ilusória "Singapura do Atlântico" o desemprego alastrou, colocando muitos em situações dramáticas. Os pensionistas, os velhos (não gosto da palavra idosos), estão mais desamparados que nunca. Completamente esmifrados: nas suas reformas, na protecção na doença e até nos lares em que confiaram o fim dos seus dias. O caos no setor é gritante e assustador. Falta quase tudo. De medicamentos a lençóis, passando muitas vezes por uma alimentação manifestamente deficitária. Não falo de cor mas com conhecimento de causa. No Centro Hospitalar do Funchal os enfermeiros pedem às famílias que comprem determinados medicamentos para os doentes ali internados. Porque não há dinheiro. O que se está a passar na Saúde é um escândalo sem precedentes, que seria bem pior se a comunicação social não fizesse eco, diariamente, dos tormentos a que o cidadão anónimo está sujeito. O que aconteceu recentemente aos utentes do Atalaia Living Care é de uma falta de respeito monumental, para quem confiou num projeto lançado com a pompa de um novo centro moderno e dinâmico, abençoado pelas altas figuras do regime. Muitos, agonizantes, estão em locais provisórios, em salas sem condições, depositados em camas velhas, sem um lugar para arrumarem os seus parcos pertences, sem a dignidade que a idade e a saúde frágil exigem. Sem privacidade. Os serviços fazem o que podem num lamaçal de desresponsabilização permanente dos decisores de topo, dos que mandam efetivamente. Não há respostas cabais. É, claro está, tudo dito de forma oficiosa, sem compromisso, sem corpo de informação merecedora de crédito, em voz baixa e em rotação permanente. Não compreendo nem aceito que o processo que culminou na trapalhada gigantesca do Atalaia tenha passado ao lado do governo regional. As pessoas merecem respeito, especialmente as mais carenciadas e debilitadas. No ano que agora acabou a onda de notícias más foi devastadora. Atingiu as famílias, mas também as empresas. Os políticos sem vergonha na cara deram o dito por não dito, fizeram tábua rasa das promessas eleitorais e cortaram a direito. Em tudo. Tudo o que se abomina nos mais elementares valores veio ao de cima, confirmando-se de forma dolorosa o que o povo sabiamente proclama há décadas: os políticos não passam de um grupo de amigos, preocupados em gerir os seus interesses. Cabe à nova geração da Madeira demonstrar o contrário. O momento continua a ser de ressaca, porque que em política pura, "catástrofe" é sempre eleitoral, nunca é do povo que passa fome.

Roberto Ferreira