A idosa do início confundir-se-ia com as milhares que vivem nas Avenidas Novas, em Lisboa, ou noutra qualquer cidade portuguesa. Depois há a vizinha, de quem toda a gente gaba a bondade, e a empregada chamada Santa, encarregue de controlar-lhe o vício do jogo, e de manter-lhe a solidão. A idosa fala com uma lógica muito diluida, não se importa muito que a filha não a visite, e gosta de ir à casa da vizinha comer bolo. 'Come Santa, e já saímos daqui jantadas'. É o mundo dos gigantescos problemas minúsculos. A patroa que pede dinheiro à empregada para jogar, a vizinha que tem um quadro horrível na sala porque pode ser visitada pelo pintor, a estrangeira que passa incógnita por Lisboa para estar com um namoradinho, o pintor que não consegue fazer uma declaração de amor. A censura instalou-se no corpo dos censurados, e tudo corre minusculamente bem. Mas a idosa, quando era nova viveu em África. Era um mulherão. Teve um amante com quem fugiu grávida, fornicava pelas esquinas e matou gente. Gostava de caçar na terra em que os pecados eram capitais, o ócio era pornográfico, e as paixões avassaladoras. 'Tabu' vai à África dos anos 60 para falar da Europa de hoje, e da sua mais recente epidemia: estamos a morrer de tédio. Os números da economia, os políticos, os trabalhadores, os empreendedores, e afinal o problema é estarmos a morrer de tédio. (Deveria agora arranjar um esquema gráfico, talvez composto por estrelas, que ilustrasse a qualidade do filme, e explicar que bem que estão os actores.) Ah, e aquele plano de abertura, quem vê não esquece.

Filipe Ferraz, Realizador