Primeiro as pessoas é lema de campanhas partidárias de diferentes quadrantes. Creio que veio para a opinião pública no tempo de Guterres primeiro-ministro, mas por cá ficou até hoje. E agora todos dizem, à boca cheia, que as pessoas estão primeiro. Todos anunciam prioridades sociais, todos dizem que é preciso ajudar as pessoas. A maioria, no entanto, rapidamente segue a sua vida e outras prioridades. As pessoas podem esperar. E esperar é o que tem feito a mulher a quem ouvi ontem queixar-se de dores e feridas que tardam em sarar. A intervenção cirúrgica não correu bem e este ano volta a ser operada. Disse-o quase com resignação. Assim, como quem aceita um castigo, uma doença natural. Afinal, soube pouco depois, é uma das vítimas que tem ainda no corpo, e de forma bem visível, vestígios do trágico 20 de Fevereiro. Não conheço a senhora, ouvi a conversa por acaso como outros ouviram. O lamento, feito conversa normal de quem já se habituou à vida diferente, é que me perturbou. E fico a pensar em quantas pessoas ainda não refizeram a sua vida, em quantos passaram a ser apenas números de uma estatística que já não conta porque passaram quase 3 anos e a memória é curta. Entre esses dramas existem pessoas, mas é evidente que nem todas estão em primeiro lugar. Esperar é também o que têm feito os moradores da Ribeira da Janela e do Seixal, desde que foram atingidos pelos temporais do início de Novembro. Dois meses depois, a paisagem apresenta ainda um rasto de devastação. Há casas fora do lugar, há pedras onde antes estavam caminhos, há terra amontoada onde estavam poios cultivados, veredas onde era estrada, ribeiros onde passava a levada . Também há pessoas, mas é evidente que nem todas estão em primeiro lugar. Porque a prioridade de quem decide nem sempre se encontra com a pressa de quem precisa de decisões. De ajuda concreta, sem conversa mole pelo meio. Quem perde a casa, o carro, a terra, por causa de uma tempestade não precisa apenas de palmadinhas nas costas. Precisa de ajuda concreta, de respostas em tempo útil. A paisagem do Seixal e da Ribeira da Janela monstra exactamente o contrário. O tempo passa e as casas continuam fora do lugar. As pedras ainda estão onde estavam caminhos, a terra amontada sobre o que já foram poios cultivados. Parece que o tempo parou e a agenda mediática faz-se do acontecimento da véspera. Primeiro as pessoas, dizem eles. Mas as pessoas podem esperar. Como se tem visto, pelo menos até às promessas que antecedem as próximas eleições.