Lídia Neves Nos meus registos culturais devo dizer que sou fã incondicional de tudo quanto sai da mão do povo, da inspiração local, de tudo o que dá pelo nome de arte popular. Daí que me debruce com particular carinho sobre esta época, o Natal e Ano Novo e Reis, por ser este o meio ecológico mais expressivo dessa arte plasmada nos presépios. E admiro-os a todos, desde os mais engalanados e dispersos, parecendo-se alguns com uma feira de quinquilharias, até aos mais sintéticos e galantes, com os musgos, as "cabrinhas", a levadinha com água corrente, os pastores, as ovelhas, a vaca e o burrinho aquecendo o menino nas palhinhas à guarda de Maria e José. São todos uma maravilha. Precisamente nos presépios mais simples, procuro a ideia motivadora da sua concepção. E encontro quase sempre. Este ano foi num recanto incrustado no vale de Machico: uma estrela gigante --- só ela a dominar um grande anfiteatro natural --- e dentro dela as parcas imagens natalícias. Como pano de fundo um painel semicircular de palmas verdes e no meio, acompanhando a geometria da estrela, um pentágono aberto, todo decorado com palmas secas. O chão é uma alcatifa de folhas de plátano e pinhas das montanhas. Tudo "tão simples como os bosques e doce como as donzelas", diria Ruy Belo. Quem atravessa a via rápida dá logo pela estrela gigante e, se tiver, como eu tive, a curiosidade de ver "o que é aquilo", então descobrirá a ideia numa estrofe explicativa:"A Terra que era planeta/ em estrela se tornou/ dentro do coração dela/ outro sol se alevantou". Fica a saber-se que os cinco raios da estrela são os cinco continentes, beneficiários da luz que dela irradia. E, como cereja em cima do bolo, os nossos olhos levantam-se mais alto e vêem o Menino que subiu e ficou-se no centro do globo terrestre, não como quem domina mas como quem abençoa. Momentos de arte que abrem caminho ao silêncio criador! Bem haja a Ribeira Seca, o Pe,Martins e a sua vasta equipa que, segundo me disseram, levantaram este "monumento" entre o tempo das Missas do Parto e a véspera de Festa e a que deram o sugestivo título de "Natal em construção".