Afinal o mundo não acabou, apenas transitamos de um ano para outro. Para uns, um ano pode significar uma imensidão de memórias e aprendizagens, enquanto para outros, pode ser apenas mais uma sequência de dias e rotinas. Tudo depende da forma como ao longo da vida vamos optando por viver. Para quem gosta do mar a diferença é como boiar e enfrentar as ondas. Já ando por aqui há muitos anos, olhando o mundo na sua permanente interação e ainda me espanto com a facilidade com que se pratica o mal, em nome de qualquer motivo ou justificação. O que é certo, é que nem todos, perante situações similares, sentem o impulso ou desejo de vingança ou destruição. Estudei e entendi que o ser humano, assim como outros animais, perante o perigo ou ameaça de território, reage e luta em defesa da sua integridade física e territorial. A história da humanidade está carregada de exemplos. Civilizações destruídas, culturas sepultadas, pessoas queimadas, mulheres apedrejadas até à morte, crianças mutiladas, e sangue, muito sangue, tudo aplaudido e festejado pelos que, por vontade própria, decidiram ajustar contas com a história ou com a própria existência. Poderíamos perguntar, o que define então a integridade e o território do ser humano? Sabemos que em nome da lei dos homens e das suas convicções, o que hoje leva á morte amanhã pode ser motivo de orgulho e condecoração. Pois bem, em nome da lei e até mesmo da justiça divina, cometem-se, em pleno século XXI, das piores maldades que a história tem conhecimento, sendo que os seus autores, são na sua grande maioria, pessoas ditas qualificadas e intelectualmente dotadas. Mas o exercício do mal não se esgota nesta dimensão de análise macrossocial, a sua incidência nas relações interpessoais surge, tantas vezes, como um direito que os autores reclamam seu, pela lógica do acerto de contas. São inúmeros os exemplos que encontramos no nosso dia-a-dia, desde o trabalho até à família, do menor ao maior nível de gravidade. Nem sempre segundo a lei do mais forte, mas quase sempre com base na pressão psicológica, ainda que por vezes acrescida da força física. O resultado é sempre grave e inibidor de desempenhos saudáveis, independentemente da área em questão. Se no trabalho as consequências se manifestam, num primeiro momento ao nível da produtividade nas famílias o resultado é avassalador e promotor de doença mental. Quantas vezes se observa, na nossa prática clinica, pessoas que ainda sofrem um passado de violência, vivido, direta ou indiretamente, na sua história de vida. Apesar de terem sido criados novos mecanismos de regulação da violência, a prática continua ativa e mais dissimulada. A possibilidade de estarmos permanentemente ligados, através de todos os meios possíveis de comunicação, abriu portas a um mundo mais acessível e estreitou canais, que ampliam o conhecimento e a proximidade entre culturas e pessoas. Mas no seu processo evolutivo, arrastou, inevitavelmente, o exercício do mal e os piratas, em tempos ligados ao mar, mergulham nas redes informáticas para, com o mesmo intuito, roubar o que não lhes pertence para mais tarde venderem ou exibirem como seu. Não concordo com a anulação das conquistas, que representam o esforço de muitos na criação de uma sociedade mais justa, aberta e solidária. Nas redes informáticas, o mau uso e a manipulação não tem que anunciar o seu fim, ou limitar a sua utilização. Muitas cartas e documentos oficiais foram desviados ao longo da história, sem que se extinguisse o sistema de correios. Não existem sistemas perfeitos. O sigilo, a intimidade, o espaço próprio, que cada um tem direito, é para respeitar, desde o quarto até às redes sociais, por isso existem chaves e a educação de não se entrar sem bater à porta. Recuar no tempo não é solução, mais chave menos chave vai sempre haver alguém a espreitar pelo buraco da fechadura, só que uns gravam o momento no seu banco de memórias enquanto outros fotografam e mostram aos amigos. A diferença está no carácter e na educação. Bom Ano!

Manuela Parente