A Lei de Finanças das Regiões Autónomas está para o Governo Regional da Madeira assim mais ou menos como o ar está para o comum dos mortais. Daí que seja estranho o silêncio sobre a proposta de revisão ao documento vital para o funcionamento dos órgãos da governação. Ou já está em dificuldades respiratórias, ou é apenas mais um exemplo de como a politiquice de vão de escada com objectivos meramente eleitoralistas se sobrepõe aos interesses do povo que se governa.
Há quem pergunte porque é que Jardim não se demite, se em 2007, por pouco menos, não hesitou. Ora, a resposta é simples, porque desta vez não ganharia nada com isso, eleitoralmente falando. Então e a Madeira?, questionarão os ingénuos. Ora não ganhou dessa vez, nem agora. Jardim demitiu-se e conseguiu um resultado histórico suportado num ‘garrote’ aos madeirenses, mas na verdade ficou tudo na mesma no que ao dinheiro diz respeito. A jogada foi de mera táctica política.
Mais tarde, sacou da derradeira cartada. Aproveitou a maioria relativa de José Sócrates para corrigir a lei e conseguiu apoio do PSD e restante oposição em Lisboa. A lei não chegou a vigorar, foi suspensa pela tragédia de 20 de Fevereiro, que obrigou a verbas extraordinárias, mas é bom não esquecer que foram o PSD (sobretudo) e o CDS os grandes impulsionadores da lei de 2010. Os mesmos que agora reconhecem à ‘troika’ que a lei é má e pouco ajustada às circunstâncias financeiras do país. O que também não é novidade, porque quando ainda era candidato a líder do PSD, Passos Coelho disse que o PSD não estava obrigado a defender os caprichos de Jardim.
Resta saber o que faz o PS nacional que agora é oposição. Mantém-se coerente e abstém-se (?) na votação da lei que é mais próxima da de 2007, da sua autoria, ou usa das mesmas armas com os olhos apenas postos nas urnas?
E na Madeira, Jardim vai ficar calado até quando? Se a lei de Sócrates era injusta para a Região, a de Passos é um aperto sem precedentes. E o líder insular nada pode dizer, pelo simples facto de ser dependente de Lisboa a todos os níveis e precisar de bombas de ar frequentes para o ajudar financeiramente a respirar. Jardim disse tudo quando explicou que há muitas coisas negociadas em conjunto, que também podia ser traduzido como “se eu estrebucho, não mandam o dinheiro do resgate”.
Mas não há silêncios que escondam a verdade. Se a lei de Sócrates era uma pequena vingança pessoal esta é um verdadeiro ajuste de contas castigador. Mais uma vez tem um destinatário único, mas quem paga são os de sempre. Claro que, neste jogo de náuseas, não é de descartar a possibilidade de a lei ter vindo escura para sofrer uma maquilhagem do PSD-M a tempo de ir berrar a ‘vitória’ para o Chão da Lagoa.