Vejo que muita gente ironiza com o ‘regresso aos mercados’. É bom sinal. Quando temos capacidade para fazermos humor com as coisas que nos apoquentam no dia a dia, eu entendo-o como sinal de saúde e de optimismo. Lembro-me que, no início destas convulsões económico-financeiras, impingiram-nos vezes sem conta essa coisa dos ‘mercados’. A culpa era dos ‘mercados’, não dos políticos de meia tijela a quem passámos cheques em branco. E foram os ‘mercados’ que me ajudaram a perceber que, afinal, aquelas sumidades que falavam e escreviam de cátedra só percebiam mais do assunto do que eu porque – alguns deles – aproveitaram para roubar o Estado em tempo útil. E todos sabemos que não se rouba apenas de capuz enfiado na cabeça... Voltando à saudável capacidade de rirmos de nós próprios – desta vez a propósito do ‘regresso aos mercados’ – vou voltar a cometer essa atrocidade de continuar a acreditar no nosso ministro das Finanças e, por tabela, no nosso Primeiro-ministro. De todos os charlatões que aparecem diariamente nas televisões e nos jornais – de todos os partidos e até de movimentos sindicais – eu continuo a ter alguma esperança naquelas duas figuras. Por uma razão muito simples: representam o fim da linha, se se concluir que eles estão errados na estratégia principal em curso, não temos mais ninguém em quem acreditar. Eu, pelo menos, não vislumbro mais ninguém. Portanto, para além de acreditar que o castiço do Vítor Gaspar e o aprendiz de político Pedro Passos Coelho estão no caminho mais próximo do que necessitamos, também desejo que eles acertem. Se foram eles quem mais propagandeou os malefícios dos ‘mercados’ e se são eles, agora, que anunciam que regressámos aos ‘mercados’, só posso continuar a acreditar que alguma coisa há-de sair desta encruzilhada, depois de tantos sacrifícios que me saem do bolso. Parece-me que o ministro das Finanças é o melhor governante actual. Tomara que o ministro da Economia, e outros, fossem tão eficientes nas áreas que tutelam como Vítor Gaspar cumpre as tarefas do seu ministério. A firmeza do Primeiro-ministro a enfrentar os ‘velhos do Restelo’ – essas sumidades que sabem tudo agora, mas deixaram isto deslizar quando governavam – e o facto de assumir que não se importa de perder as próximas eleições, são pontos fortes que não identifiquei em nenhum dos outros vendedores de banha de cobra que o antecederam. Olho para o último ano e meio e vejo muitas correcções feitas. E que tinham de ser feitas. É pena é que só o tenhamos feito porque obrigados por uns senhores estrangeiros, vulgo ‘troika’. Continua a haver muito esquema por derrubar? Sim, claro que há. O actual Governo da República ainda mantém alguns tiques do clientelismo político-partidário? Sim, infelizmente é verdade e isso continua a sair dos cofres públicos. Mas nunca se derrubaram tantas barreiras. Aliás, essa é uma das razões porque se vê tanta gente incomodada. Voltando ao princípio: também continuo sem saber, na plenitude, o que significa ‘regressar aos mercados’; mas imagino que seja melhor do ouvir ‘a culpa é dos mercados’. Mais: quando vejo alguns figurões a se contorcerem nas televisões e nos jornais, algo me diz que o povo português deve estar feliz por se ter livrado deles. Só que ainda faltam alguns...