O país está inundado de alegria. Fomos aos mercados! - é a notícia que, qual desígnio nacional e reconhecimento da estratégia política do governo, corre de Vila Real de Santo António a Vila Real de Trás-os-Montes, do Portugal litoral ao país profundo. Por coincidência - há quem nelas acredite - esta 'vitória' acontece num momento-chave que concentra algumas particularidades: foi ao milímetro combinada com a Irlanda, decorre da mudança de atitude política das instituições europeias em particular do BCE (cabe perguntar porque raio é que os dirigentes políticos europeus não quiseram tomar esta decisão mais cedo e deixaram chegar a situação internacional a este ponto!) e, ouro sobre azul, faz esquecer o impacto do Orçamento de Estado para 2013, com o agravamento de impostos, a baixa dos montantes dos ordenados e reformas, bem como o corte definitivo de 4 mil milhões de euros nas despesas do Estado. Se se quiser, e dito de outra maneira, acenam-nos a cenoura (fomos aos mercados) enquanto nos dão com o cajado (a continuada austeridade). Fica sempre a certeza de estarmos a ser usados e enganados, numa sucessão de manobras e jogadas, num infindável negócio calculado de benefícios políticos e financeiros, sem que as pessoas, as gentes desempregadas e sem condições de vida, sejam tidas em consideração ou acauteladas, por parte deste governo que desde sempre se revelou de uma frieza e insensibilidade a roçar o sadismo: gastaram demais? pois agora vão ter o castigo! Um parêntesis para dizer que não acho que seja displicente o sorriso do secretário de Estado, Carlos Moedas, no elogio à elevada qualidade do relatório do FMI - um relatório elaborado a partir de dados ultrapassados ou mesmo reconhecidamente errados, mas que é perfeito para aumentar o pânico dos milhões de portugueses com medo e sem perspectivas nem ânimo. É um sorriso que revela a essência do homem e, também, a do governo a que pertence! E a essência, contrariamente ao que possa parecer, não é pouco. Porque é na essência que residem os valores e os princípios; é por aí que se mostra o que verdadeiramente se é. Neste momento, a par das enormes dificuldades económicas, é ainda pior o clima de falta de seriedade, de suspeita de corrupção, de permanente descrédito, do vale tudo; é isso que se explica o baixíssimo patamar de confiança na actividade política e partidária da parte dos portugueses, mesmo que correndo o risco de injustamente classificar todos por igual (recordemos que, aquando do Conselho de Estado reunido a propósito da taxa social única, a multidão reunida junto do palácio de Belém apupava indiscriminadamente todos quantos entravam e saíam da reunião - os que defendiam a TSU e os que se lhe opunham com determinação!). Dezenas de comentadores alimentam junto da opinião pública a bondade e a importância desta ida aos mercados. Comentam, em nome de uma isenção que a maior parte não possui porque têm opções políticas e estão ligados a partidos ou a interesses económicos assessórios da actividade partidária e governativa. Poucos, fazem algumas perguntas que ficam normalmente sem resposta, submersas no tsunami dos elogios. Qual a importância desta operação? Qual o custo dos juros? Como se paga este aumento de dívida? Como é que é possível que tenhamos chegado a esta situação, em pouco mais de um ano de uma governação esquizofrénica e ideologicamente criminosa? A recuperação económica leva tempo, sabemos, mas quando é que se tomam medidas para a tornar um motor de desenvolvimento? Que futuro espera este país empobrecido, triste, desanimado? Fomos aos mercados. Com o beneplácito do FMI, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu, fomos vender dívida pública. Mas se não se arrepia caminho, se não se muda a política, se não se reposicionam os valores e princípios, se a honestidade e a seriedade não substituem as trapalhadas e aldrabices, se o interesse público não prioriza sobre os interesses privados, o que a seguir se vende é, definitiva e irremediavelmente, o país.
Violante Saramago Matos