José António G. de Freitas Dizia-me à dias um colega, que tinha ouvido na televisão um entrevistado de renome, qualificar a juventude atual, como sendo a juventude de ouro. Eu fiquei a pensar no assunto, e de facto, Portugal nunca teve uma juventude tão bem preparada como esta. A obrigatoriedade da frequência do ensino secundário, o acesso generalizado ao ensino superior, os meios tecnológicos de informação disponíveis, os média, tudo isto contribuiu para uma nova mentalidade e formação dos jovens, que hoje saem das escolas, das universidades com conhecimentos, que num passado recente era impensável no país. Sabemos que há necessidade de reorganizar melhor certos cursos superiores, que se encontram desajustados da realidade, mas de uma forma geral, são bons. Sem dúvida que tudo isto só foi possível, com a entrada de Portugal na comunidade europeia que trouxe oportunidades de formação (bolsas, fundos estruturais suportados em projectos inovadores), que motivaram os próprios professores, investigadores, a investir na sua formação continua, e atingirem patamares bastante elevados, ao nível dos congéneres no estrangeiro. O país nunca produziu tantos estudos na área da investigação científica, publicados em revistas internacionais especializadas, como nas últimas décadas. Hoje, são muitos os investigadores e professores portugueses convidados a apresentarem os seus trabalhos no estrangeiro, em seminários, em palestras e outros eventos. O ensino superior deslocalizou-se, e de alguns anos para cá, as novas universidades do interior, do sul e ilhas começaram a dar nas vistas. Ninguém contesta que o país modernizou-se. E tudo isto se reflectiu positivamente nos jovens. E o que acontece agora a estes jovens? O país não criou condições para aproveitar este potencial da juventude. Investiu tantos anos neles, e não rentabiliza este capital enorme. Então, os melhores vão para o estrangeiro, trabalhar para as multinacionais, para os hospitais, onde são estimados e valorizados, integram-se nas comunidades, e constituem novas famílias. Criam raízes ! Portugal, a cada dia que passa fica mais distante. Os outros jovens ficam cá, a fazerem part times nos supermercados, nos bares, nos call-centers. Mais uma vez, como aconteceu ao longo dos séculos, com os descobrimentos marítimos, com as colonizações, abrimos caminhos para os outros económica e socialmente se desenvolverem e até dominarem. Com esta política, sem visão de futuro, daqui a dez anos , seremos um país de desempregados e reformados.