O Marquês de Pombal usou todo o seu ardil prático para abolir a escravatura em Portugal, embora não nas colónias. Percebeu que uma economia forte, com finanças que dela brotassem e alimentassem a Coroa, poderia advir do pagamento obrigatório de ordenados a serviçais pelas grandes fortunas do Reino. Hoje, discute-se a intensão de Lisboa em dar dimensões e capacidades ao Estado e às suas instituições mais adequadas ao tamanho de Portugal. Diferentes pontos de vista convergem na ideia de que há uma dependência excessiva do mercado de trabalho no Estado, mas nem todos concordam com uma redução cega do staff público. Com uma redução de quadros, é certo que veríamos purgada a massa dos funcionários públicos de indivíduos com pouco ou nenhum valor funcional, mesmo correndo o risco do despedimento de trabalhadores idóneos por exercerem funções posteriormente tidas como inúteis. Parece-me sensato que a redução dos quadros da função pública seja progressiva e ponderada na capacidade do mercado privado em assimilar os desempregados que advenham da medida. Ponham-se os olhos no que se tem passado nos últimos meses e percebe-se ter desabado o castelo de cartas lusitano: sem emprego, não há sustento e, sem ele, capacidade de comprar. Poupando o que se tem para viver, o português reduz ao essencial incontornável o leque de bens e serviços e, dessa forma, os sectores económicos começam a cair um por um. Esse é efeito contrário ao que foi conseguido pelo Marquês. Passados mais de dois séculos será que já não aprendemos com os nossos "egrégios avós"?

Carlos Diogo Pereira, Colaborador da AAUMa